sexta-feira, 7 de julho de 2017

Da arte de observar


Posso estar na praça de alimentação do shopping, na mesa do restaurante, no banco do ônibus, na fila do supermercado, na esquina esperando para atravessar a rua, na janela do meu quarto, em qualquer lugar que tenha o mínimo de pessoas. Ali, eu vou ser apenas uma observadora. Dos olhares, gestos, palavras, suspiros, passos, tropeços e sorrisos dos outros. Vez que outra o objeto da observação me olha de soslaio, como a perguntar quem é a enxerida que quer se meter na conversa - na vida! - alheia. Peço desculpas de antemão, sou apenas uma observadora.

Não lembro quando comecei a gostar dessa prática, nem tão incomum nem tão comum, de ficar atenta ao que os outros estão fazendo. Talvez tenha sido desde sempre, da criança que "não dava trabalho". Por ventura possa ser uma das facetas da minha timidez. Quiçá tenha aflorado com a faculdade de Jornalismo. Talvez tudo isso. A estranhos, pode parecer que sou uma avoada, com os pensamentos na lua. Na verdade, eu estou imaginando como será a vida daquele ser humano. Qual é a idade, a profissão, se já casou, se já descasou, se tem filhos, quantas vezes teve o coração partido, se já chorou naquela semana... Passo a tentar deduzir o que se passa com aquela alma. Perscrutar as histórias de quem nunca vi na vida.

Ambientes diferentes soam mais atrativos ao meu ser. Como se portam os convidados vips no backstage de uma corrida de Fórmula 1? Como olham uns para os outros? Como se comportam os participantes de um velório? Em uma festa de classe baixa, como os homens chegam nas mulheres? E em uma balada da classe alta? Na fila de embarque no aeroporto, quem tem mais pressa e quem está relaxado? A moça que trabalha no caixa do supermercado está de batom vermelho, o homem que escolhe maçã tem uma aliança, a mulher que dirige parece estar aflita e rói as unhas...

Tal exercício, de observar desconhecidos, aguça a minha sensibilidade. Somos seres sensíveis, ora. Aflora a minha empatia. Deveríamos ser seres cada vez mais empáticos, não? Me faz bem. Por quê? Porque me faz ver que eu não sou a única a ter o rosto relaxado ou tenso, os olhos sedutores ou marejados, um sorriso largo ou envergonhado, as mãos calejadas ou macias, a voz firme ou calma. Um semblante de esperança ou de tédio. Devo achar tão curioso observar outras pessoas pelo simples fato de que, nelas, observo a mim mesma.


*Toda sexta-feira, às 10h, tem crônica nova aqui no blog. Gostou? Deixe seu comentário. E volte sempre!

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