sexta-feira, 21 de julho de 2017

Analógico X Digital


A minha geração está perdida. Ok, não posso falar por todos eles, mas falo por mim. Eu e toda a galera que nasceu entre o final da década de 1980 e o início dos anos 1990 viveu parte da vida de forma analógica e, hoje, vive a vida digital. E ainda tem tanta novidade por vir... O fato é que entramos na escola em meio a brincadeiras como pega-pega e saímos com celular, câmera digital e perfil no Orkut. Entramos na faculdade escrevendo SMS e saímos mandando Whatsapp, postando foto no Instagram, Facebook, Twitter e etc etc etc.

Pelo menos para mim, foi tudo muito rápido. Quando vi, o computador passou de uma aula de informática por semana para horas e horas na frente da tela. O celular que servia quase que exclusivamente para fazer ligações virou um smartphone que possui tantas funções que nem dá tempo de descobrir tudo antes que ele estrague. Mais impactante ainda é se adaptar a tudo isso de um dia para outro, recebendo esse volume gigantesco de informação e estímulo sem parar para pensar. Nós compramos, nós consumimos, nós lemos, nós postamos, nós estamos em todas as redes sociais... E a saúde mental no meio de tudo isso? E a emocional?

A geração dos meus pais foi ensinada para trabalhar para ganhar dinheiro, comprar uma casa, ter um carro e construir uma família. Realização pessoal não combinava com as oito horas diárias. E tudo bem. A geração dos meus filhos - tomara! - trabalhará por amor e também por dinheiro, porque dele não conseguiremos nos livrar. Eu desejo que, daqui a vinte anos, não sejam mais necessários os textos de autoajuda tão disseminados que se resumem em uma frase: "Faça o que você ama". A minha geração está no limbo, entre as duas: de um lado, foi ensinada e sente a pressão da família pela tradição e, por outro, sente o ímpeto de seguir o coração e apostar naquilo que faz o coração vibrar. Se ficarmos ricos, ótimo. Se não, tudo bem. Mas quem disse que é fácil descer do muro e escolher um lado em definitivo?

Em meio a tudo isso, elas, as nossas já indispensáveis redes sociais. Nós estamos longe de saber a influência delas nas nossas emoções. Confesso possuir um pouco de medo de saber.. É uma super exposição misturada com inveja-de-amigos-e-inimigos misturada com a obrigação de seja feliz-bonito-rico-apaixonado o tempo inteiro. E, como se não bastasse, no auge dos nossos 20 e poucos e tantos anos, vivemos uma das piores crises econômica e política da história do Brasil. Temos que ter opinião. Temos que lutar contra tudo isso. Temos que nos impor. Não é fácil. Para mim, pelo menos, não é fácil. Não está sendo fácil. Às vezes, tudo parece apenas uma grande confusão. E eu quero um pouco de calma. 

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sexta-feira, 14 de julho de 2017

Gente quente


Em dias de inverno, gente quente faz a diferença. Em dias de verão, também. No outono e na primavera, a mesma coisa. Gente quente faz bem em qualquer estação, em qualquer hora, em qualquer lugar. Não é exclusividade de homem, mulher, branco, preto, jovem ou velho. É coisa de alma. Essa mesmo, que não sabemos explicar direito, mas que todo mundo entende o que é. Vez por outra, falamos que "fulano tem uma energia boa". É por aí.

Gente quente vem em forma de um abraço mais demorado, um sorriso verdadeiro, uma companhia naquela hora em que só se quer desabafar, uma fala sem julgamentos ou um olhar amoroso. Gente quente não precisa de roupa de marca muito menos de carro do ano. Precisa mesmo é de humanidade. E só! E tanto! Essa particularidade intrínseca a seres humanos. Não é sobre agilidade, é sobre sensibilidade. Não é sobre a capacidade de armazenamento, mas a capacidade de transbordamento.

Estamos cada vez mais máquinas. E nascemos humanos. Há tanto frio, desde as notícias que estampam manchetes até o olhar fixo na tela ao andar pela calçada, enquanto a vida passa. Às vezes, eu sinto tanto frio... E colocar mais roupa de lã não adianta. O frio vem da carência, da falta de algo. Pode ser apenas o sol ou o afeto de uma vida toda. Estamos carentes, desamparados, perdidos em meio a tanta novidade. Gente quente é quem diz a famosa frase "Vai ficar tudo bem." E emenda com o "Estou contigo." Poucas palavras que são capazes de deixar o coração aquecido.

Vale a pena ser quente. Mesmo que todo o resto esteja abaixo de zero. Se o que temos de mais valioso são os laços que criamos, é sempre hora de aumentar a temperatura nos relacionamentos, conosco mesmo e com os outros. Tem mais a ver com empatia do que com sexo. Uma alma calorosa vive melhor e emana energia. Passa pela vida leve e, ao mesmo tempo, forte. Tem quem seja puro aconchego. É disso que eu gosto. Gente quente. 

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sexta-feira, 7 de julho de 2017

Da arte de observar


Posso estar na praça de alimentação do shopping, na mesa do restaurante, no banco do ônibus, na fila do supermercado, na esquina esperando para atravessar a rua, na janela do meu quarto, em qualquer lugar que tenha o mínimo de pessoas. Ali, eu vou ser apenas uma observadora. Dos olhares, gestos, palavras, suspiros, passos, tropeços e sorrisos dos outros. Vez que outra o objeto da observação me olha de soslaio, como a perguntar quem é a enxerida que quer se meter na conversa - na vida! - alheia. Peço desculpas de antemão, sou apenas uma observadora.

Não lembro quando comecei a gostar dessa prática, nem tão incomum nem tão comum, de ficar atenta ao que os outros estão fazendo. Talvez tenha sido desde sempre, da criança que "não dava trabalho". Por ventura possa ser uma das facetas da minha timidez. Quiçá tenha aflorado com a faculdade de Jornalismo. Talvez tudo isso. A estranhos, pode parecer que sou uma avoada, com os pensamentos na lua. Na verdade, eu estou imaginando como será a vida daquele ser humano. Qual é a idade, a profissão, se já casou, se já descasou, se tem filhos, quantas vezes teve o coração partido, se já chorou naquela semana... Passo a tentar deduzir o que se passa com aquela alma. Perscrutar as histórias de quem nunca vi na vida.

Ambientes diferentes soam mais atrativos ao meu ser. Como se portam os convidados vips no backstage de uma corrida de Fórmula 1? Como olham uns para os outros? Como se comportam os participantes de um velório? Em uma festa de classe baixa, como os homens chegam nas mulheres? E em uma balada da classe alta? Na fila de embarque no aeroporto, quem tem mais pressa e quem está relaxado? A moça que trabalha no caixa do supermercado está de batom vermelho, o homem que escolhe maçã tem uma aliança, a mulher que dirige parece estar aflita e rói as unhas...

Tal exercício, de observar desconhecidos, aguça a minha sensibilidade. Somos seres sensíveis, ora. Aflora a minha empatia. Deveríamos ser seres cada vez mais empáticos, não? Me faz bem. Por quê? Porque me faz ver que eu não sou a única a ter o rosto relaxado ou tenso, os olhos sedutores ou marejados, um sorriso largo ou envergonhado, as mãos calejadas ou macias, a voz firme ou calma. Um semblante de esperança ou de tédio. Devo achar tão curioso observar outras pessoas pelo simples fato de que, nelas, observo a mim mesma.


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