Primeiro, os mestres


Confesso. Não me orgulho. Vivi 26 anos sem ler os grandes clássicos da literatura brasileira. Apesar de gostar de ler, costumava escrever músicas de High School Musical nos livros de literatura do ensino médio em vez de prestar atenção na professora. Ou ler os suspenses do Sidney Sheldon. Para os trabalhos de aula, lia algum resumo do Google. Terminada a faculdade, resolvi tirar o ano de 2017 para ler as obras-primas. Quase como uma redenção. Talvez a mancada possa ser reduzida se eu disser que já li os sete livros da saga O Tempo e O Vento, copiei dezenas de trechos nas notas do meu celular e depois para um arquivo de Word. Isso faz uns três anos e, às vezes, ainda volto para dar uma lida nelas... Erico Verissimo realmente mexe comigo.

Pois bem, vamos aos fatos. Para começar, escolhi Lucíola, do José de Alencar. Que romance! Uma bela história de amor com um final (spoiler!) não tão belo. Até chorei. Depois, aquele livro que todo mundo sabe do que se trata, mesmo sem ter lido uma linha: Dom Casmurro, do Machado de Assis. Que romance! Paixão, traição, tensão. Depois, findo há poucos dias, "degustei" Gabriela, Cravo e Canela. Que romance! Que romance! Que romance! Publicado em 1958, tão atual. E, ainda, feminista! Malvina Tavares que o diga. Ahhhhh, Gabriela... Quem não quer ser Gabriela? Quem consegue não amar Gabriela? Jorge Amado quase emparelhou com o Verissimo na minha lista de escritores preferidos.

Escrevi tudo isso para chegar ao assunto que me motivou a escrever essa crônica: primeiro, conheça os mestres. Por quê? Eu já pensei em escrever um livro. Quem sabe um romance? Ou uma coletânea de contos? Agora, imaginem se eu tivesse publicado uma obra sem ter lido os grandes romancistas? Sem ter chorado, rido, refletido ou ficado pasma com aqueles que não à toa estão imortalizados na Academia Brasileira de Letras? Ficaria contente com o livro em minhas mãos, mas correria o risco de, ao me deparar com a grandeza de um clássico, ficar com vergonha do que produzi. Seria uma sensação horrível. Quase como ter cometido uma falta de respeito à literatura e ao seu valor como instrumento de reflexão e mudança social.

Não digo que todo livro que é publicado precisa ser extraordinário, a ponto de constar na lista de leituras obrigatórias dos vestibulares de universidades públicas. Nem tão bom para ser adaptado na televisão, no cinema ou no teatro. Cada livro tem a sua função e cada autor sabe de si. Conhecer os exímios escritores - ou arquitetos ou médicos ou jornalistas ou advogados ou o ofício que for - é o ponto de partida para fazer bem feito. Ou até melhor. São as referências, as quais chegam a provocar um arrepio na espinha e fazem desnecessárias as palavras, que inspiram a excelência. Nada menos do que a excelência. Pelo menos na maior parte do tempo. Pelo menos para se dormir com a consciência tranquila.  

O próximo clássico está definido: Os Sertões, de Euclides da Cunha.

*Toda sexta-feira, às 10h, tem crônica nova aqui no blog. Gostou? Deixe seu comentário. E volte sempre!

Comentários

  1. Pois é... Também sofro com isso. É que às vezes o tempo para se ler é tão pouco e são tantas as novidades, que muitos clássicos acabamos deixando para um dia, não é mesmo? Mas chegamos lá...
    GK

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    Respostas
    1. Aham! Infelizmente, não teremos tempo para lermos todos os livros que desejamos. Ainda mais hoje, com as redes sociais a roubarem nosso tempo com a nossa própria anuência. O jeito é ler aquelas obras que julgamos melhores e/ou mais curiosas. :)
      Obrigada pela visita, Gugu!

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