sexta-feira, 26 de maio de 2017

Insensíveis algoritmos



Redes sociais são parte da nossa rotina. Não tem jeito. Às vezes, não são duas, nem três, nem quatro... Perde-se a conta de quantas se tem. Uma para isso, outra para aquilo, todas para "socializar". Por mais que elas já estejam inseridas nas nossas vidas e tenham mil e um lados positivos, alguns são bem desagradáveis. Pelos simples motivo de que são controladas por algoritmos, ou seja, por códigos, computadores e máquinas, e não por pessoas, ou seja, por quem tem bom senso (espera-se), sensibilidade e respeito. Alguns detalhes deixam essa diferença muito clara.

Para alguns, esse fato pode não ter nenhum problema. Para mim, no entanto, já me incomodou (e incomoda) por diversas vezes. No Facebook, por exemplo, a possibilidade de ver o que se postou naquele mesmo dia há anos, pode tanto trazer tanto lembranças boas como ruins. É possível "personalizar" as notificações, excluir pessoas e dias específicos, mas quem consegue se lembrar de tantas datas? Aniversários, dia dos namorados, casamento e afins são mais fáceis. Mesmo assim, é praticamente impossível excluir todas as postagens que possam vir a não ser tão agradáveis. E dá um trabalhão. O preço a pagar é se deparar com uma postagem de 2011, que naquele momento fazia todo o sentido e, hoje, a única vontade de deixar aquilo no passado mesmo.

Sem contar quando a rede de Zuckerberg pergunta "onde estou trabalhando", quando vou ao meu perfil, como se ele estivesse incompleto. Quanta insensibilidade! Não basta ter que conviver internamente com a agonia de não-estou-trabalhando-por-favor-não-se-sinta-um-inútil, o Facebook me joga a questão na cara. Pior do que isso é quando eu abro o LinkedIn e lá vem a pergunta que não quer calar: "Onde você trabalha atualmente?" Aff. Sério? Se eu estou em uma rede social focada em networking, vou esquecer de colocar qual é o meu emprego atual? Se eu estivesse trabalhando, é óbvio que eu colocaria. Não precisa perguntar, não.

Os algoritmos não estão nem um pouco preocupados se vai doer quando, "sem querer", aquela pessoa que você deixou de seguir no Facebook para nunca mais ver reaparece de repente. Também não vão saber que, aquela pessoa da lista de possíveis conhecidos para adicionar, você não suporta nem ouvir falar o nome, muitos menos adicioná-la como "amiga". Por outro lado, duvido muito que seus amigos toquem no nome de quem eles sabem que você detesta e cortou relações há tempo. Dificilmente, eles vão nos lembrar daquela festa que não acabou bem, apesar da foto postada conter só sorrisos. De jeito nenhum, vão ficar constantemente perguntando se já conseguimos um emprego. Eles não são máquinas. São humanos. Ainda bem.

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sexta-feira, 19 de maio de 2017

Ciclo Natural


"Mulheres (...) com história de depressão devem ser observadas criteriosamente e o medicamento deve ser suspenso se a depressão reaparecer com gravidade". "O uso de (...) está associado ao aumento do risco de eventos tromboembólicos e trombóticos. Entre eles, trombose venosa profunda, embolia pulmonar, infarto do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais". "Aumento da pressão arterial tem sido relatado em mulheres em uso de (...)". "Alguns estudos sugerem que o uso de (...) pode estar associado ao aumento do risco de câncer de colo do útero em algumas populações de mulheres". "Um estudo mostrou que o risco de diagnóstico de câncer de mama foi ligeiramente maior em mulheres que utilizaram (...) do que nas que nunca utilizaram".

"Reação muito comum (ocorre em mais de 10% dos pacientes que utilizam este medicamento): cefaleia (dor de cabeça), incluindo enxaqueca, sangramento de escape". "Reação comum (ocorre entre 1% e 10% dos pacientes que utilizam este medicamento): vaginite (inflamação na vagina), incluindo candidíase; alterações de humor, incluindo depressão, alterações de libido, nervosismo, tontura, náuseas, vômitos, dor abdominal, acne, dor nas mamas, aumento do volume mamário, cólica menstrual, retenção hídrica (inchaço), alterações de peso (ganho ou perda)." 

A lista continua, mas vou parar por aqui. Afinal, está tudo na bula. E, você, com certeza já leu com atenção a bula do seu anticoncepcional, certo? Espero que sim. Só para deixar claro, esse post não é para demonizar o uso da pílula. Não. Ela é um remédio, de tarja vermelha, ou seja, serve para tratar doenças, como a síndrome do ovário policístico, que aflige inúmeras mulheres. Por motivos como esse, é óbvio que a pílula não deve ser dizimada da face da Terra. E cada mulher sabe o que é melhor para si. Merece respeito e acolhimento, como todas merecemos. Isso é sororidade. Dito isso, esse post é sobre a minha experiência pessoal e não precisa concordar, nem discordar. Se for útil para refletir, já está ótimo.

Depois de cinco anos e dez meses tomando um comprimidinho todo santo dia (tirando os dias de pausa), parei. Foi no dia 20 de fevereiro, um dia depois do meu aniversário e de acabar a cartela. Amanhã, dia 20 de maio, são três meses "limpa". No começo, foi estranho. Parecia que faltava algo na minha rotina. Antes disso, quando pensei em parar, li vários textos na internet. Em um deles, a autora falava que, para a mulher, a pílula passou de sinônimo de liberdade - quando foi lançada nos anos 1960 - para sinônimo de prisão. E faz todo o sentido. Hoje, em um namoro, normalmente, qual é a responsabilidade do homem em não engravidar a parceira, se ela toma anticoncepcional? ZERO. A mulher fica 100% responsável por não ocorrer a fecundação. Eis mais uma faceta do machismo nosso de cada dia. Até o Junior Lima falou sobre isso no Altas Horas, em abril. Não é por acaso que a pílula anticoncepcional masculina não foi liberada até hoje. Em outro texto, a autora fala sobre a aniquilação do tesão. Não só sexual, mas de vida, de justiça, de sonhos.

Certa vez, fui à ginecologista e comentei que não sabia se devia continuar com a pílula. Afinal, já eram anos indo na farmácia todo mês e comprando aquela caixinha - sem receita, como é de praxe. A médica nem ouviu direito e respondeu: "Não se mexe em time que está ganhando". Nem cogitou a possibilidade de outro método contraceptivo. E eu fiquei com vergonha de continuar no assunto. Em todas ginecos que fui, nenhuma perguntou: "Você tem histórico de trombose na família?"; "Você já teve depressão?"; "Você sabe os riscos de tomar anticoncepcional?"; "Você conhece os outros métodos contraceptivos?"; "Você conversou com o seu parceiro sobre a melhor proteção para vocês?". Nunca. Minha memória não é maravilhosa, mas não lembro mesmo de ter ouvido qualquer uma das perguntas acima.

Tudo são flores nessa minha nova empreitada? Claro que não. Minha pele ficou mais oleosa e as espinhas deram o ar da graça. Muitas, principalmente internas. Típicas de disfunções hormonais. Meu cabelo ficou mais oleoso e começou a cair bem mais do que o normal. Até emagreci. Ou, mais corretamente, perdi líquido. Desinchei. A insegurança de não saber quando a menstruação vai vir incomoda. Antes era muito mais fácil. Sabia exatamente quando começava e quando terminava. Mas com o tempo acostuma. E os aplicativos de celular - a tecnologia - está aí pra isso. Só dar um Google e listas de apps para controlar o ciclo menstrual surgem. Hoje, já sinto melhora na pele, no cabelo e nada que um pouco de paciência e uma visita à dermatologista não ajudem.

Não é uma decisão fácil. Nem deve ser tomada de um dia para o outro. Pense, avalie, reflita, leia, converse, pense mais um pouco e só então decida. Tudo bem tomar a pílula, mas tome por ser uma decisão única e exclusivamente sua. É seu direito. Eu parei pelo longo tempo que já estava tomando, pelo medo dos efeitos colaterais e por querer voltar a entender o meu corpo, meus humores e minha natureza. Tomava por conveniência. Nesse ano de mudanças na minha vida, antes de tudo, vi que elas precisam vir de dentro. O fato é que as mulheres precisam saber que há outras opções. Informe-se! A minha foi parar.

"A identificação da mulher com a natureza é perturbadora. Os ciclos da natureza são os ciclos da mulher: lua, mês, menstruação”.
Do livro Mulher: o negro do mundo, de Malcolm Montgomery (1997) 

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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Leve o cachorro passear


Pode soar um tanto quanto óbvio, mas nem por isso não merece ser dito. A dica é essa mesma do título, que você acabou de ler: leve o seu cachorro passear. Depois daquele dia estressante de trabalho, naquele sábado de sol ou naquele domingo em que a preguiça reina: leve o seu cachorro passear. Vença a vontade de ficar o dia todo no sofá, prepare o saquinho para recolher o cocô, coloque um calçado confortável, vista a coleira no animalzinho (ou animalzão) e está tudo pronto.

Ter um cachorro de estimação é uma experiência fascinante. Trabalhosa, é verdade. É vacina, comida, banho, tosa, antipulga, carinho, muito carinho, e, claro, os passeios. Não li a respeito, nem procurei estudos científicos, mas os dogs de hoje devem ser muito mais sedentários se comparados aqueles de outrora. Assim como os donos. Arrisco dizer que os nossos pets convivem menos com os seus semelhantes. E nós? Idem. Às vezes, pego-me pensando o que a Princesa, minha cachorrinha, "pensa" sobre disputar a atenção com o meu celular que está sempre por perto.

Pois bem, e por isso mesmo, vamos a alguns benefícios de levar o bichano explorar todos os postes e canteiros possíveis. Em primeiro lugar, é uma atividade física para ambos. Em segundo, é um exercício de viver em sociedade. Para os humanos. Tem que ter paciência, jogo de cintura se o seu canino gosta de um escândalo, saber respeitar quem não quer ser incomodado ou o contrário, parar quando o outro quer fazer um carinho e diversas outras situações. Conviver com o próximo, basicamente. Além disso, ainda tem a cara de felicidade do peludo.

Não cabe aqui segredar que a ideia desse texto surgiu depois que, numa tarde dessas, uma menina, que devia ter seus 10 anos, ficou olhando para a minha yorkshire enquanto nos cruzávamos na calçada. Eu notei e a Princesa também. Logo que passarmos, olhei para trás e a garotinha também tinha virado o rosto. Sorriu para mim. Pode parecer tolice, mas esse sorriso mexeu comigo. Além desse, foram e são tantos outros. Os diálogos curtos, mas felizes, trocados dão-me certa esperança. É, de que o mundo pode ser um lugar melhor. Afinal, os cachorros não estão aqui para nos lembrar de que somos feitos de carne, osso e amor? Leve o seu companheiro ou companheira passear e veja com os seus próprios olhos. Ah, não esqueça o saquinho. Vivendo em sociedade, né?

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sexta-feira, 5 de maio de 2017

Aquela voz

Imagem: Pintura de Dimitra Milan

Deveria ser algo natural. Ou, pelo menos, um pouco menos difícil. Não sei se é a sociedade materialista em que vivemos, a educação dada pelos pais ou o próprio medo de se conhecer. Talvez todos juntos. Uns mais, outros menos. O fato é que ouvir a minha própria voz me parece uma tarefa tão árdua. Essa, conhecida como intuição, parece fugir ao meu alcance. Como se um botãozinho da alma tivesse dado tilt. Ou está em manutenção. Não devo ser a única.

Não tem como falar desse tema sem lembrar de uma das mais intensas referências da minha monografia, finalizada em junho passado. Definitivamente, o livro Mulheres que correm com os lobos, da Clarissa Pinkola Estés, não é um livro que se esquece fácil. Aliás, não é um livro que se lê fácil. Nas mais de 500 páginas de histórias, lágrimas e aconchego, fica mais do que claro que a intuição é a essência das mulheres. Não se trata daquela intuição feminina machista e superficial. Não. Trata-se da ligação inexorável entre a mulher e a sua verdadeira natureza - e toda a força inerente a esse elo.

Lembro-me da primeira vez que senti que tomava uma decisão única e exclusivamente pela minha própria vontade. Foi uma sensação diferente. Eu não tive dúvida de que era aquilo que eu queria. Dane-se o que outros pensavam! De fato, não me arrependo da decisão que tomei. Também me lembro de quando não ouvi a minha intuição, deixei para lá. Tive medo de falar. Até hoje, não passa um dia sem que eu não me lembre dessa falha. Aprendi que o intragável "se eu tivesse..." não combina com a intuição.  Com ela, não tem dessas coisas.

Hoje, sinto como se eu estivesse em uma espécie de limbo. A sensação é de me afastar do que sou, enquanto tento me aproximar do que sou. Uma confusão que desgasta, uma estranheza que cansa. Os pensamentos se embaralharam e as batidas do coração se descompassam. Talvez seja uma urgência desnecessária querer "exercitar" a minha intuição. Quem sabe ela vem com o tempo. Não sei. Tenho pressa. Por ora, fecho os olhos e respiro. E espero meu encontro comigo mesma.

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