sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Sonho meu


Muito se fala sobre eles, pouco se sabe de verdade. Eu, particularmente, nunca fui de dar muita bola. Só se eram episódios extraordinários. Muito ruins ou muito bons. De uns meses para cá, tirei o atraso e desenvolvi um pequeno vício sobre eles, os sonhos. Os meus sonhos. Criei o hábito de escrever o que havia sonhado, logo após ter aberto os olhos e ainda ter as imagens e falas vivas na minha mente. Primeiro digito na tela do celular, de qualquer jeito, com direito a erros gramaticais e de concordância. Depois, passo a limpo em um caderninho. Hoje, são dezenas de sonhos anotados.

Com o tempo, começam a aparecer algumas imagens que se repetem. Ou, pelo menos, que parecem que se repetem. Sonhos costumam ser um pouco confusos... Há alguns meses, sonhava constantemente que andava de ônibus. De uns tempos para cá, o veículo mudou para um carro. Na direção? Sempre outro alguém. Uma vez, eu estava dirigindo. E quase ocorreu um acidente. Festas, grandes multidões, a turma do ensino médio, dia da formatura, sensação de estar perdida, muita chuva e algumas tempestades... E calçados: bonitos, feios, em falta, femininos, masculinos. Todos são elementos recorrentes nos meus sonhos.

O Google costuma ser o meu guia para desvendar o significado dos sonhos. Como quando tive um sonho bastante nítido em que aparecia uma aranha. Ela foi o destaque. Li que uma aranha pode ter a ver com situações relacionadas à mãe da gente. Aí lembrei que no dia anterior tinha tido uma briga horrível com a minha. Podia ser coincidência, mas podia não ser. Nosso subconsciente sabe o que quer passar com os nossos sonhos. Nós que não sabemos interpretar o que ele quer nos dizer. Dá medo... Eu tenho medo. De quem? De mim mesma? Não pode ser. Preciso enfrentar.

Por trás de tudo isso, está a missão que decidi encarar desde o começo do ano: desenvolver a minha intuição. Ouvir o meu coração. Entrar em contato comigo mesma. Há vários jeitos de nomear o processo, mas no fundo eu quero apenas ser quem sou. Descobrir quem sou, para ser bem exata. Por que não aproveitar os sonhos? Eles devem estar aí para alguma coisa. Ainda estou no começo das descobertas e tudo está mais enevoado do que claro. Tudo bem, eu não tenho pressa. Autoconhecimento não combina com o tique-taque do relógio mesmo. Para agora, que eu deite, durma e sonhe.

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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Debaixo do chuveiro


Tomar banho tem todo um ritual. Ligar o chuveiro - com toda a habilidade para não se molhar com o primeiro jato, sempre de água fria. Tirar a roupa, sempre na mesma ordem. Meias, calça, camiseta, calcinha e sutiã. Conferir se a água está quente e entrar. Sentir o corpo e os cabelos banharem-se pela água quente... Entro quase em um universo paralelo. Passa shampoo, passa condicionador, passa sabonete. Eu cheguei a passar condicionar mesmo? A hora do banho é a parte da minha rotina que nunca cansa.

Sempre me senti à vontade nos banheiros das casas onde morei. Talvez porque apenas nos últimos três anos tive um quarto só para mim. Antes, sempre dividi o dormitório com uma das minhas irmãs. Mas o quarto não tem chave? Tem, mas a ação de trancar a porta suscita a inevitável questão: "Por que trancou?". Não vale a pena. No banheiro, é diferente. A regra é trancar a porta. Ufa. Estou livre. Dentro do menor cômodo da casa. Eu e meus momentos de paz. Ou de dor, quando as lágrimas se misturam com as gotas que percorrem meu corpo.

Tomar banho funciona praticamente como um momento catártico para mim. Por várias vezes, tive insights e ideias enquanto deixo meu corpo relaxar e minha mente viajar. Sem falar nas conversas importantes, que nunca aconteceram na vida real. Relembro diálogos que aconteceram e me culpo por não ter dito o que eu queria dizer. Ou sorrio por ter falado exatamente aquilo que eu queria. Imagino DRs, papos-cabeça, entrevistas de emprego... Falo comigo mesma e com o mundo. O box é meu ouvinte.

Uma pena a água ser um recurso esgotável. Economizo. Mas minha vontade é ficar, ficar e ficar no banho... Lá, no meu reduto anti-estresse. A água passa e leva o pó de um dia a dia muitas vezes difícil. Não está sendo fácil para ninguém. Uma vez, em algum dia e em algum lugar, li que o momento do banho é um dos poucos que ainda entramos em contato com a natureza. Não pisamos na terra. Não sentimos o vento. Fugimos do sol. Resta-nos a hora do banho para nos reconectarmos. Somos seres vivos, compostos de cerca de 65% de água. No corpo e na alma.

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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Essas tais coincidências


"Coincidência, substantivo feminino, 1. Ato de coincidir. 2. [...] 3. Simultaneidade de diversos acontecimentos." Esta é a definição disponível no Dicionário Priberam, na versão online. Achei-a objetiva demais. Afinal, se tem algo que mexe com a minha subjetividade, são as coincidências da vida. Como uma música que você não ouvia há anos - por lembrar momentos que ainda doem (ou que sempre vão doer) - e toca no rádio quando você estava em um dia à flor da pele. Tem quem não dê a mínima para eventos como esse. Eu dou o máximo. Talvez de forma que beira o excesso.

Em minha defesa, alego que o dia a dia me força a acreditar nessas tais coincidências. Dou exemplos. Outro dia, passei uma tarde feliz acompanhada. Quando voltei para casa, encontrei amigos de uns vizinhos na entrada do prédio. Nunca havia os visto. No elevador, a moça perguntou para a vizinha se fulano estava em casa. Fulano tinha o mesmo nome de quem eu havia dado tchau há uns 15 minutos... Já numa tarde dessas, recém havia saído de casa e estava caminhando bem bela quando uma mulher cumprimentou um homem do outro lado da rua. O nome do sicrano? Aquele que não deve ser mencionado, também conhecido como ex. Em uma cidade com um milhão de habitantes, um ser com aquele nome vem passar logo perto de mim...

Esses são exemplos "tranquilos". Há alguns acasos que mudaram a minha vida, literalmente. Em uma mesa de bar, depois de umas cervejas, eu conto essas histórias para quem quiser ouvir. Só tem uma condição: não pode me olhar com cara de desdém. Vou me sentir ofendida. Respeito quem não acredita em "destino" ou "lugar certo na hora certa" ou no famoso "estava escrito". Cada um crê e não crê no que quiser. Eu escolho o equilíbrio: 50% é resultado do destino e 50% é resultados das escolhas. Fico em cima do muro, sim.

Às vezes, penso que essas coincidências acontecem somente porque eu valorizo-as. Gosto de pensar que a vida dá "sinais", que tudo está conectado e que há algo além da nossa parca materialidade. Tem mais um motivo. Divago que possa ser o jeito que encontrei de aliviar um pouco o peso sobre as minhas costas. De deixar que o destino se encarregue de me aproximar de quem eu devo me aproximar e de me afastar de quem eu devo me afastar. De não me crucificar por um erro, porque ali na frente a vida dará um jeito. Eu sei que é preciso fazer escolhas o tempo todo. Mas, de vez em quando, eu gosto de fechar os olhos e passar o comando a alguém. Às nuvens, à lua, às estrelas...   

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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Mais parques, por favor


Nem parece que se está em uma cidade grande. Ou parece, pelas buzinas impacientes que insistem em poluir o ar e pela sirene estridente da ambulância que tem pressa para passar. Caminho mais para relaxar e menos para me exercitar. Outros correm como se estivessem em uma competição, alguns andam de bicicleta, um que outro lê um livro num dos bancos, uns embalam os filhos nos balanços e ainda há aqueles que passeiam enquanto levam os cachorros passear. Tem também os que discutem a relação. Namoram.

Um parque, no meio de uma "selva de pedra", é muito mais do que árvores dispostas ao longo de pequenas estradinhas. É um refúgio mental. Como se, ao adentrar aquele espaço, o relógio passasse a girar mais devagar, a crise não estivesse tão grave, o emprego não fosse tão chato e aquele problema insuperável não passasse de mais um de tantos que a vida nos reserva. Não vamos para o parque tonificar o corpo, porque há inúmeras academias a poucos passos dali. Vamos para o parque para tonificar a mente e, assim, melhorar o corpo.

No parque, não tem dress code. Não precisa estar de Nike, ter o tênis de corrida mais caro ou o legging que saiu na última coleção. Mas se quiser ir, tudo bem. Chinelo? Ok. Paletó e gravata? Ok. O parque aceita - e pleiteia - diversidade. Abraça os vários abraços: homem e mulher, mulher e mulher, homem e homem. O jovem descansa enquanto o vovô corre atrás do neto. As amigas conversam sem parar enquanto a jovem fecha os olhos para entrar no seu silêncio. O parque é democrático. 

Não é por acaso que as cidades que oferecem boa qualidade de vida possuem grande número de áreas verdes. Espaços que são venerados, como devem ser. É bom estar em contato com a natureza. Faz bem. Mesmo que o asfalto esteja ali pertinho, junto dos prédios espelhados. Gosto de pensar que a função mais importante de um parque em uma metrópole talvez seja a de humanizar. Tornar a cidade mais humana. Mais do que isso, tornar os humanos mais humanos. Vez por outra esquecemos que somos de carne, osso e alma.

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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Na Barriga da Minha Irmã


Quando minha irmã contou que estava grávida, no último Dia das Mães, automaticamente um sorriso se formou no meu rosto - e no de todas as outras pessoas que estavam naquele salão. Não são todos os momentos que ficam eternizados na nossa memória. Esse, no entanto, é um deles. Alguns segundos antes da notícia, quando minha irmã havia começado a falar, olhei para as duas rosas que estavam na mão dela e do meu cunhado, olhei para o rosto dos dois, para o ambiente e senti que eles iam anunciar aquela novidade. "A gente queria contar que a família vai aumentar", disse ela.

Passado o deslumbramento inicial (que na verdade só aumenta com o passar das semanas), eu meio que entrei em choque. Como se eu arregalasse os olhos toda vez que eu pensava no assunto. Será mesmo que a minha irmã está grávida? Será mesmo que a barriga da minha irmã vai crescer? E vai ter um nenê dentro? Vai sair um ser humano da barriga da minha irmã!!! Ai meu Deus!!! Podem parecer perguntas infantis e ingênuas, mas uma gravidez é o que de mais perto temos da magia. É muito louco pensar que sairá uma nova pessoinha da barriga da minha irmã. Muito louco.

Eu nunca havia parado para refletir sobre como seria ter um sobrinho até aquele domingo de tarde. Sabia que um dia eu me tornaria tia, afinal, com três irmãs seria muita sacanagem eu não poder treinar com pelo menos um nenê antes de gerar o meu próprio. Confesso que via postagens nas redes sociais de amigas com suas sobrinhas e sobrinhos e julgava aquele amor todo como exagerado. Pensava: "Como podem amar tanto se nem são filhos delas?" Que besteira... Hoje eu acredito naquele amor todo. E mais do que isso: sei que vou fazer igual. Talvez não online, mas off-line.

Ano passado, quatro colegas e eu produzimos um documentário sobre jovens mães em uma das últimas disciplinas do curso. Em uma das aulas, não lembro sobre o que exatamente estávamos conversando, a prof. Marliva disse que ela acreditava que enquanto as mães continuassem a gerar filhos, enquanto Deus ainda proporcionasse isso a elas, haveria esperança. O nosso mundo ainda teria jeito. Não se trata do meu sobrinho se tornar um Nobel da Paz nem um iluminado que acabará com a fome. É sobre amor. Amor. Todo o amor que emana da barriga da minha irmã.

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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A Turma do Ensino Médio


Marcaram para uma sexta-feira à noite a famosa "janta da turma." Ao primeiro momento, quando fui adicionada no grupo do Whatsapp intitulado "3º C", eu imediatamente o silenciei. A ideia de se reunir novamente com o pessoal do ensino médio não me agradou. Não que os meus três últimos anos no colégio tenham sido ruins. Foram legais. Reencontrar o pessoal novamente, no entanto, era outra história... Não fazia tanto tempo assim que nós tínhamos nos visto. Foi na Copa do Mundo de 2014, em um jogo do Brasil quando ainda não havia acontecido o fatídico 7 x 1. Três anos só. 

Porém... Como sou uma pessoa até bastante influenciável, após um pedido um pouco mais insistente da minha amiga que também foi minha colega, topei ir para o churrasco. Seja o que Deus quiser, pensei. Chegou o dia e, de alguma forma, eu estava nervosa. Sempre tem uma tensão no ar nesses encontros, não? Espero que sim, porque senão vou me achar a antissocial problemática. Estaria lá a colega que eu invejava a extroversão, o guri por quem eu me apaixonei platonicamente, a outra colega que eu definitivamente não ia com a cara... Enfim, os personagens do ensino médio. Tenso.

Ainda bem que eu fui. No dia seguinte, uma das colegas escreveu no grupo que ela havia adorado "reconhecer" os companheiros das aulas impossíveis de Física. Essa talvez seja a palavra certa para descrever a sensação que eu tive, assim como ela. Sobre a colega que apresentava os trabalhos com uma tranquilidade absurda, percebi que o que eu queria era ter aquele amor próprio. Invejava a liberdade dela em ser o que era. Já a guria que o "santo não batia", descobri que também está na estatística dos desempregados. E que não é fácil, para ninguém. A primeira a casar e ser mãe continua a querer sair, viver, aproveitar a vida. E que o piadista do grupo também enfrenta dias tristes.

Mais do que isso, foi uma oportunidade de eu mesma ver como me transformei depois de oito anos e meio daquela noite da formatura. Reavaliar a pessoa, a mulher e a profissional que me tornei. Quem sou hoje, diferente daquela que fui. Gostei do resultado. Deu até um orgulho interno. Ainda há tanto para errar, aprender e evoluir, mas o que fiz até agora me acalenta. Sinto que estou na direção certa. Foi também uma oportunidade de perceber como, na essência, ainda somos parecidos. Somos jovens, um tanto perdidos. Estamos todos juntos, no mesmo barco. Mesmo que um para cada lado.

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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Na mão esquerda


Aconteceu durante um almoço em um movimentado shopping de Porto Alegre. Na mesa à frente da minha, uma senhora almoçava também. Era uma senhorinha mesmo, com as suas muitas décadas de vida. Rugas, reforçados óculos de lente, uma leve corcunda. Quem a acompanhava era a filha, provavelmente. Na mão que segurava o talher, notei que usava uma aliança. Logo pensei na possibilidade do marido já ter morrido e ela continuar a usar aquele anel dourado no dedo anular da mão esquerda. Desejei que sim. Que amor. Quanto amor.

Em seguida, lembrei-me do meu avô. Resolvi perguntar para a minha mãe, que estava comigo, se meu avô continua a usar a aliança, passados mais de cinco anos desde que a minha avó faleceu. Ela disse que não. Fiquei triste. Ela também. De alguma forma, seria uma homenagem à minha avó. E aos mais de cinquenta anos de casados que comemoraram com festa de Bodas de Ouro. Poucos símbolos representam tanto e são tão fetichizados como uma aliança de casamento. Naquelas gramas de ouro, está o compromisso de respeito, no mínimo, à pessoa com quem se divide a vida. Definitivamente, não é qualquer adereço.

De uns tempos para cá, venho reparando nas mãos dos homens e das mulheres. Mais deles do que delas. Não importa onde eu esteja. Virou quase uma mania. Esse símbolo do matrimônio (não me arrisco a classificá-lo do amor) atrai o meu olhar. Às vezes, quando a pessoa me desperta um pouco mais de atenção, começo a imaginar há quanto tempo casou, como deve ser o parceiro ou parceira, se é realmente feliz, quantas crises já superaram, se ainda existe amor... Sou jornalista de formação; as perguntas - e a curiosidade - afloram com certa facilidade. Ainda bem que é tudo dentro da minha cabeça.

Óbvio que um anel na mão não é garantia de coisa alguma. Um relacionamento vai muito além de usar ou não o adorno. Porém, gosto de pensar que serve como uma lembrança. De vez em quando, parar e olhar para a aliança pode fazer lembrar tudo que foi construído e dos sonhos que ainda não aconteceram. Ou se aquele anel já não faz o menor sentido e a vontade de deixar de usá-lo só cresce. Mais ou menos como o diploma na parede que evoca o juramento feito no dia da formatura ou o passaporte com as folhas cheias ou limpas. É um documento. De vida. 

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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Sobre eles (e o Rodrigo Hilbert)



Homens. Melhor com eles, pior sem eles. Somos todos seres humanos, mas eles são diferentes. De mim, que vim ao mundo mulher. Os homens são mais fortes. A biologia não nega. Menos delicados, talvez. Não sangram todo mês, mas fazem a barba todos os dias. Não sentem um bebê crescer no ventre, mas embalam a criança perto do peito. Em meio à convivência com a testosterona, são intitulados “machos”. Nem venha falar de macho alfa. Brega, brega, brega. Homens são homens. 

Eu gosto dos homens. Pena que o machismo fez tão mal para eles, assim como para nós, as oprimidas. Não estou querendo comparar quem sofre mais. Todas e todos somos atingidos. Ninguém escapa. A posição de opressor obviamente também não é benéfica. Pode até aparentar poder, mas é um poder infundado, ilegítimo e cruel. Independente do papel desempenhado, sobra angústia, insegurança e medo. Onde já se viu um homem não poder chorar nem na frente da própria família? Dos amigos? De qualquer pessoa. Não faz o menor sentido. Chorar é humano, não feminino. 

Homens, não demonizem o Rodrigo Hilbert. Além de ele estar muito bem casado, acredito que as mulheres que já passaram dos 20 e poucos anos não mantenham paixões platônicas com ideais hollywoodianos. Não queremos o Rodrigo, nem os seus dotes culinários, sua habilidade com crochê ou os conhecimentos em construir churrasqueiras. Queremos o que ele representa: o homem que não precisa provar que é "homem" o tempo todo. Isso deve ser tão cansativo... Se os homens pararem para pensar, vão querer deixar de lado tanta pressão. Sejam o que vocês são. Com todas as delícias e as dores de ser. Assim, a sensibilidade que lhes falta, vira à tona. E pronto.

Os homens, eles são lindos. Conheço homens generosos, amáveis e sensíveis. De outros, não posso dizer o mesmo. Esses, perdidos em uma sociedade cada dia mais feminista – sem volta, ainda bem! –, precisam da nossa ajuda para ver o quanto sofrem com todas as mazelas enraizadas pelo patriarcado. Não conseguiremos vencer sozinhas. Eles continuarão pais, filhos, irmãos, esposos. Certa vez, ouvi uma “tese” interessante. Diz que os homens são 60% masculinos e 40% femininos, enquanto que as mulheres são 60% femininas e 40% masculinas. A palavra mágica está aí: equilíbrio. Homens, vale a pena tentar. Eu topo ajudá-los.

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sexta-feira, 21 de julho de 2017

Analógico X Digital


A minha geração está perdida. Ok, não posso falar por todos eles, mas falo por mim. Eu e toda a galera que nasceu entre o final da década de 1980 e o início dos anos 1990 viveu parte da vida de forma analógica e, hoje, vive a vida digital. E ainda tem tanta novidade por vir... O fato é que entramos na escola em meio a brincadeiras como pega-pega e saímos com celular, câmera digital e perfil no Orkut. Entramos na faculdade escrevendo SMS e saímos mandando Whatsapp, postando foto no Instagram, Facebook, Twitter e etc etc etc.

Pelo menos para mim, foi tudo muito rápido. Quando vi, o computador passou de uma aula de informática por semana para horas e horas na frente da tela. O celular que servia quase que exclusivamente para fazer ligações virou um smartphone que possui tantas funções que nem dá tempo de descobrir tudo antes que ele estrague. Mais impactante ainda é se adaptar a tudo isso de um dia para outro, recebendo esse volume gigantesco de informação e estímulo sem parar para pensar. Nós compramos, nós consumimos, nós lemos, nós postamos, nós estamos em todas as redes sociais... E a saúde mental no meio de tudo isso? E a emocional?

A geração dos meus pais foi ensinada para trabalhar para ganhar dinheiro, comprar uma casa, ter um carro e construir uma família. Realização pessoal não combinava com as oito horas diárias. E tudo bem. A geração dos meus filhos - tomara! - trabalhará por amor e também por dinheiro, porque dele não conseguiremos nos livrar. Eu desejo que, daqui a vinte anos, não sejam mais necessários os textos de autoajuda tão disseminados que se resumem em uma frase: "Faça o que você ama". A minha geração está no limbo, entre as duas: de um lado, foi ensinada e sente a pressão da família pela tradição e, por outro, sente o ímpeto de seguir o coração e apostar naquilo que faz o coração vibrar. Se ficarmos ricos, ótimo. Se não, tudo bem. Mas quem disse que é fácil descer do muro e escolher um lado em definitivo?

Em meio a tudo isso, elas, as nossas já indispensáveis redes sociais. Nós estamos longe de saber a influência delas nas nossas emoções. Confesso possuir um pouco de medo de saber.. É uma super exposição misturada com inveja-de-amigos-e-inimigos misturada com a obrigação de seja feliz-bonito-rico-apaixonado o tempo inteiro. E, como se não bastasse, no auge dos nossos 20 e poucos e tantos anos, vivemos uma das piores crises econômica e política da história do Brasil. Temos que ter opinião. Temos que lutar contra tudo isso. Temos que nos impor. Não é fácil. Para mim, pelo menos, não é fácil. Não está sendo fácil. Às vezes, tudo parece apenas uma grande confusão. E eu quero um pouco de calma. 

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sexta-feira, 14 de julho de 2017

Gente quente


Em dias de inverno, gente quente faz a diferença. Em dias de verão, também. No outono e na primavera, a mesma coisa. Gente quente faz bem em qualquer estação, em qualquer hora, em qualquer lugar. Não é exclusividade de homem, mulher, branco, preto, jovem ou velho. É coisa de alma. Essa mesmo, que não sabemos explicar direito, mas que todo mundo entende o que é. Vez por outra, falamos que "fulano tem uma energia boa". É por aí.

Gente quente vem em forma de um abraço mais demorado, um sorriso verdadeiro, uma companhia naquela hora em que só se quer desabafar, uma fala sem julgamentos ou um olhar amoroso. Gente quente não precisa de roupa de marca muito menos de carro do ano. Precisa mesmo é de humanidade. E só! E tanto! Essa particularidade intrínseca a seres humanos. Não é sobre agilidade, é sobre sensibilidade. Não é sobre a capacidade de armazenamento, mas a capacidade de transbordamento.

Estamos cada vez mais máquinas. E nascemos humanos. Há tanto frio, desde as notícias que estampam manchetes até o olhar fixo na tela ao andar pela calçada, enquanto a vida passa. Às vezes, eu sinto tanto frio... E colocar mais roupa de lã não adianta. O frio vem da carência, da falta de algo. Pode ser apenas o sol ou o afeto de uma vida toda. Estamos carentes, desamparados, perdidos em meio a tanta novidade. Gente quente é quem diz a famosa frase "Vai ficar tudo bem." E emenda com o "Estou contigo." Poucas palavras que são capazes de deixar o coração aquecido.

Vale a pena ser quente. Mesmo que todo o resto esteja abaixo de zero. Se o que temos de mais valioso são os laços que criamos, é sempre hora de aumentar a temperatura nos relacionamentos, conosco mesmo e com os outros. Tem mais a ver com empatia do que com sexo. Uma alma calorosa vive melhor e emana energia. Passa pela vida leve e, ao mesmo tempo, forte. Tem quem seja puro aconchego. É disso que eu gosto. Gente quente. 

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sexta-feira, 7 de julho de 2017

Da arte de observar


Posso estar na praça de alimentação do shopping, na mesa do restaurante, no banco do ônibus, na fila do supermercado, na esquina esperando para atravessar a rua, na janela do meu quarto, em qualquer lugar que tenha o mínimo de pessoas. Ali, eu vou ser apenas uma observadora. Dos olhares, gestos, palavras, suspiros, passos, tropeços e sorrisos dos outros. Vez que outra o objeto da observação me olha de soslaio, como a perguntar quem é a enxerida que quer se meter na conversa - na vida! - alheia. Peço desculpas de antemão, sou apenas uma observadora.

Não lembro quando comecei a gostar dessa prática, nem tão incomum nem tão comum, de ficar atenta ao que os outros estão fazendo. Talvez tenha sido desde sempre, da criança que "não dava trabalho". Por ventura possa ser uma das facetas da minha timidez. Quiçá tenha aflorado com a faculdade de Jornalismo. Talvez tudo isso. A estranhos, pode parecer que sou uma avoada, com os pensamentos na lua. Na verdade, eu estou imaginando como será a vida daquele ser humano. Qual é a idade, a profissão, se já casou, se já descasou, se tem filhos, quantas vezes teve o coração partido, se já chorou naquela semana... Passo a tentar deduzir o que se passa com aquela alma. Perscrutar as histórias de quem nunca vi na vida.

Ambientes diferentes soam mais atrativos ao meu ser. Como se portam os convidados vips no backstage de uma corrida de Fórmula 1? Como olham uns para os outros? Como se comportam os participantes de um velório? Em uma festa de classe baixa, como os homens chegam nas mulheres? E em uma balada da classe alta? Na fila de embarque no aeroporto, quem tem mais pressa e quem está relaxado? A moça que trabalha no caixa do supermercado está de batom vermelho, o homem que escolhe maçã tem uma aliança, a mulher que dirige parece estar aflita e rói as unhas...

Tal exercício, de observar desconhecidos, aguça a minha sensibilidade. Somos seres sensíveis, ora. Aflora a minha empatia. Deveríamos ser seres cada vez mais empáticos, não? Me faz bem. Por quê? Porque me faz ver que eu não sou a única a ter o rosto relaxado ou tenso, os olhos sedutores ou marejados, um sorriso largo ou envergonhado, as mãos calejadas ou macias, a voz firme ou calma. Um semblante de esperança ou de tédio. Devo achar tão curioso observar outras pessoas pelo simples fato de que, nelas, observo a mim mesma.


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sexta-feira, 30 de junho de 2017

Por que tão insegura, menina?


Muito provavelmente, não é a primeira vez que falo sobre isso aqui. Os dias passam e eu sigo a nutrir um medo de críticas e, portanto, uma insegurança que passa do limite do aceitável. Tudo isso combina com o clássico "sofrer por antecipação". Pode soar ridículo e um tanto quanto absurdo, mas demoro a ler e-mails, mensagens no Facebook e no Whatsapp por conta disso. Sinto um medo de ler algo horrível sobre mim. Parece que, a qualquer momento, alguém virá dizer que tudo o que eu faço é ruim. Ou nem tão bom assim.

Dia desses, estava assistindo ao Canal GNT e, durante um intervalo, passou o depoimento de algumas mulheres "famosas" sobre autoconfiança. Eis que ouço a youtuber Jout Jout confessar: "Quando clico em publicar o vídeo, eu fecho a página e saio correndo." Talvez não foi exatamente com essas palavras, mas foi isso que ela quis dizer. Ufa! Eu não sou a única. Identifiquei-me com e, até então, nunca havia ouvido alguém falar com todas as letras o que eu sempre tive vergonha de admitir. É uma mistura de querer mostrar e não querer mostrar o que achamos que fazemos bem. 

Por quê? Por que tanta insegurança? Não sei o porquê de eu ainda relutar tanto em saber a reação das pessoas a respeito do que faço, escrevo, crio. Acho que eu espero sempre o pior. Mesmo sabendo que ele não virá, eu espero. Na minha vida profissional, houve momentos em que a primeira coisa que vinha à minha cabeça, a cada vez que uma tarefa era dada a mim, era a de que eu não iria conseguir fazer aquilo. Por mais que eu soubesse que, sim, eu era mais do que capaz, esse pensamento era inevitável. Normalmente, meninos não sentem tanto essa falta de autoconfiança. Não vou entrar na discussão disso ser fruto da sociedade machista em que vivemos, mas é verdade.

O maior problema é a possibilidade do medo do que os outros vão dizer atrapalhar as minhas próprias criações. Não é segredo que o medo impede que a criatividade flua, livre, leve e solta. Talvez eu me policiei demais. Talvez eu me explique demais. Talvez eu fique longe demais de mim mesma. Não sei... Não é fácil. Nunca é fácil. Preciso repetir para mim que a minha própria avaliação basta. Se eu gostei, amei, aprovei, está ótimo. Minha parte está feita. Quem sabe, um dia eu chegue lá. Quando esse momento chegar, talvez eu não precise mais escrever textos como esse.

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sexta-feira, 23 de junho de 2017

Pare e respire



Faz cerca de um ano e meio. Era final de tarde ou começo de noite, depende do ponto de vista. Estávamos quatro ou cinco na sala. Não lembro exatamente. O instrutor ditava as orientações de relaxamento. Inspirar profundamente pelo nariz, expirar todo o ar dos pulmões. Estava eu em uma das primeiras e únicas aulas de ioga que eu fiz (infelizmente). Foi naquela ocasião que eu aprendi a respirar. Não foi na hora em que eu nasci, nem quando me resgataram naquela tarde em que eu não vi que a profundidade da piscina era duas vezes a minha altura, nem quando achei que o meu peito não fosse aguentar tamanha dor de amor. 

Respirar todo mundo respira, mas saber respirar de modo a realmente fazer valer a capacidade dos nossos pulmões é para poucos. Infelizmente. Não me lembro de ter ouvido falar sobre respiração nas aulas de Educação Física em todos os anos do ensino fundamental e médio. Regras de vôlei, handebol, basquete... Dessas lições eu me lembro. Por que isso não é ensinado às crianças e aos adolescentes? É (ou deveria ser) tão básico. Foi necessário que eu me matriculasse na aula de ioga, deitar no tatame, fechar os olhos e ouvir: "Primeiro, coloquem a mão em cima do abdômen e o sintam dilatar, depois sintam as costelas se expandirem e, por último, o peito inflar. Para expirar, façam o caminho contrário."

Pimba! Foi como se tivesse acendido uma luz em mim. Depois daquele dia, eu me dei conta que nunca tinha respirado de forma longa. Talvez em raríssimas vezes. É óbvio que não respiro assim toda hora, todo minuto, todo segundo. É impossível e há momentos que exigem uma respiração mais curta. Como a praxe é respirar de maneira rápida, o desafio é fazer o contrário. Cinco minutos por dia é suficiente. Antes de dormir, para relaxar e ter um sono mais profundo. Quando sobrar um tempinho. Aos poucos, o ritmo da respiração vai mudar - para melhor. Parar e respirar naquele momento de muito estresse, ansiedade, raiva, ódio ou desespero pode ajudar bastante. Respiração mais calma gera pensamentos mais claros.

Pode parecer besteira, frescura ou até exagero para alguns - "Eu tenho coisas mais importantes para me preocupar" ou "Sempre respirei normal e estou aqui, vivo" -, mas, se não damos atenção nem para o mais básico dos processos do corpo humano, algo deve estar errado. Viver no automático não é para seres humanos. O corpo está o tempo inteiro se comunicando conosco. E nós nem o damos ouvidos. Muitos possuem uma ótima audição, mas estão surdos perante o próprio corpo. Respirar melhor pode ser um jeito de entrar novamente em contato com essa morada tão especial e única que é o nosso corpo. Se nós viemos para esse mundo com dois pulmões tão poderosos, por que não usá-lo mais? O resultado é mais oxigenação, mais saúde, mais criatividade. Mais vida.

Para quem quiser saber mais, separei dois vídeos que falam sobre o assunto: Você respira bem? | DICAS | Método DeRose Trindade e Ritmos respiratórios | DICAS | DeRose Method Trindade.

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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Primeiro, os mestres


Confesso. Não me orgulho. Vivi 26 anos sem ler os grandes clássicos da literatura brasileira. Apesar de gostar de ler, costumava escrever músicas de High School Musical nos livros de literatura do ensino médio em vez de prestar atenção na professora. Ou ler os suspenses do Sidney Sheldon. Para os trabalhos de aula, lia algum resumo do Google. Terminada a faculdade, resolvi tirar o ano de 2017 para ler as obras-primas. Quase como uma redenção. Talvez a mancada possa ser reduzida se eu disser que já li os sete livros da saga O Tempo e O Vento, copiei dezenas de trechos nas notas do meu celular e depois para um arquivo de Word. Isso faz uns três anos e, às vezes, ainda volto para dar uma lida nelas... Erico Verissimo realmente mexe comigo.

Pois bem, vamos aos fatos. Para começar, escolhi Lucíola, do José de Alencar. Que romance! Uma bela história de amor com um final (spoiler!) não tão belo. Até chorei. Depois, aquele livro que todo mundo sabe do que se trata, mesmo sem ter lido uma linha: Dom Casmurro, do Machado de Assis. Que romance! Paixão, traição, tensão. Depois, findo há poucos dias, "degustei" Gabriela, Cravo e Canela. Que romance! Que romance! Que romance! Publicado em 1958, tão atual. E, ainda, feminista! Malvina Tavares que o diga. Ahhhhh, Gabriela... Quem não quer ser Gabriela? Quem consegue não amar Gabriela? Jorge Amado quase emparelhou com o Verissimo na minha lista de escritores preferidos.

Escrevi tudo isso para chegar ao assunto que me motivou a escrever essa crônica: primeiro, conheça os mestres. Por quê? Eu já pensei em escrever um livro. Quem sabe um romance? Ou uma coletânea de contos? Agora, imaginem se eu tivesse publicado uma obra sem ter lido os grandes romancistas? Sem ter chorado, rido, refletido ou ficado pasma com aqueles que não à toa estão imortalizados na Academia Brasileira de Letras? Ficaria contente com o livro em minhas mãos, mas correria o risco de, ao me deparar com a grandeza de um clássico, ficar com vergonha do que produzi. Seria uma sensação horrível. Quase como ter cometido uma falta de respeito à literatura e ao seu valor como instrumento de reflexão e mudança social.

Não digo que todo livro que é publicado precisa ser extraordinário, a ponto de constar na lista de leituras obrigatórias dos vestibulares de universidades públicas. Nem tão bom para ser adaptado na televisão, no cinema ou no teatro. Cada livro tem a sua função e cada autor sabe de si. Conhecer os exímios escritores - ou arquitetos ou médicos ou jornalistas ou advogados ou o ofício que for - é o ponto de partida para fazer bem feito. Ou até melhor. São as referências, as quais chegam a provocar um arrepio na espinha e fazem desnecessárias as palavras, que inspiram a excelência. Nada menos do que a excelência. Pelo menos na maior parte do tempo. Pelo menos para se dormir com a consciência tranquila.  

O próximo clássico está definido: Os Sertões, de Euclides da Cunha.

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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Página em Branco


Uma página em branco sempre dá um frio na barriga. Ao menos para mim. Abrir um novo arquivo do Word ou um novo e-mail (mais condizentes com os dias atuais) e se deparar com o cursor piscando (e esperando, quase que impaciente) pode ser uma ação trivial, mas guarda certo ritual. Qual pessoa não espera, nem ao menos um segundo, para começar a escrever? Um momento de hesitação que faz reviver algumas questões. Como eu começo? Será que eu consigo? Vale a pena?

Talvez para quem trabalhe diretamente com as palavras, como os jornalistas, isso soe mais comum. O fato é que a vida é uma sucessão de páginas em branco. Novos amigos, novos relacionamentos, novos empregos, novas escolhas, novos gostos, novos cheiros, novas emoções, novas decepções, novas dores. Principalmente, novos "eu". Algumas novas páginas são adicionadas na marra. A demissão, a morte de alguém, o fim repentino do namoro, a descoberta de uma doença, o fim de uma série (falando de Sense8...), entre tantas. No meu caso, a nova página veio com o final da faculdade. O que vem depois dela? Toda página em branco gera certa expectativa, coloca-nos em suspense.

Ao me permitir uma analogia, digo que todo dia é uma nova página em branco. Soa clichê? Sim. E o que importa? Algumas dessas laudas são mais importantes que as outras. Todas, porém, têm seu papel. Se um ano tem 365 dias, tem-se um livro ao final de cada ano. Escrever um livro é coisa séria - tanto quanto ter um filho e plantar uma árvore, já dizia o ditado. Não nos atenhamos a vocábulos difíceis, mesóclise, frases de efeito, frases longas e confusas... Só lembre-se de ter cuidado com a crase, porque ela merece respeito (e é afrodisíaca quando corretamente usada). Em geral, prefira palavras simples, mas cheias de significado.

Uma piscadela e eis a metade do ano. Estamos praticamente na metade do enredo. O que foi escrito até aqui? É bom de ler ou nem tanto? Ainda restam meses e junto com eles muitas páginas em branco a preencher. Releia o que já foi escrito e, se achar que convém, planeje uma reviravolta na personagem principal. Se já houve grandes emoções, reserve um capítulo para dias mais calmos. Cada um é autor da própria história. Não perca tempo copiando a dos outros. O prazo termina em 31 de dezembro de 2018. Ou amanhã mesmo. De qualquer modo, escreva. Não deixe em branco.

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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Delação Premiada (ou Pequenos Delitos)


Inspirada pelos delatores da Operação Lava Jato (no bom sentido, se é que há bom sentido) e pela Tati Bernardi, resolvi fazer uma delação premiada por minha conta. Isso mesmo. Tornar público alguns delitos que cometi ao longo da minha longa e curta vida. As vantagens e o que eu ganho em troca? Quem sabe eu me livro de ter que pagar uns pecados? De qualquer forma, durmo com a consciência mais tranquila. Adianto que não matei (visualizar uma morte sangrenta não conta, né?). Na minha "autodelação", só tem coisa light. Eu acho.

Para começar, uma mentirinha básica. Confesso que enganei algumas professoras e colegas no alto dos meus 10 anos, na quarta ou quinta série. Eu era representante da turma e, por isso, era responsável por trancar a porta na ida ao recreio e destrancar na volta. Seria desnecessário esse "procedimento de segurança" em algum país no qual não fosse necessária essa tal delação premiada, ainda mais se tratando de um colégio particular, mas voltemos ao fato. Certo dia, perdi a chave! Não achava a bendita em lugar algum. Não tive escolha: fingi que trancava e fingi que abria a porta por alguns dias. Foi horrível. Até que, para minha felicidade, encontrei a maldita. Rezei até o Sequeri. Funcionou!

Também, quando criança (ok, um pouco mais crescida também), eu não me aguentei e fuxiquei até me apropriar de algumas balas e chicletes da bolsa da minha mãe. Ninguém manda não comer os doces que ganha na hora que ganha. Eu estava com muita vontade e não me arrependo. Quando, por acaso, encontrava algumas moedas perdidas, também as surrupiava. Uma pena que ultimamente ela não deixa mais balas na bolsa... Quando o meu avô deitada na rede, lá na casa dele, eu só ficava esperando a hora que ele ia levantar, para ver se não tinham caído moedas dos bolsos dele. Às vezes, minhas irmãs e eu achávamos algumas.

Vamos à vida profissional. Confesso que me apossei de algumas canetas que ficavam em um armário na sala onde fazia um estágio, ainda na fase que eu tentava ser arquiteta. Uma preta, uma verde e uma vermelha. O salário era tão baixo que ficava difícil até comprar caneta. Foram muito úteis! Não lembro se peguei também grafite, régua, borracha... Talvez. E quem nunca imprimiu arquivos pessoais no trabalho que atire a primeira pedra! Porém, sempre tive bom senso. E agilidade para imprimir naqueles momentos que eu ficava sozinha na sala. Mereço um desconto porque sempre eram coisas importantes, como boletos e trabalhos de aula. Poxa, o xerox sempre foi caro. E tinha fila.

Mais recentemente, houve o episódio do vale-refeição da firma. Em minha defesa, digo que fiz tantas horas extras naquele estágio que eu me achei merecedora daqueles dinheiros a mais. Foram tão tão tão bem gastos. Afinal, comida é sempre bom investimento. Teve também aquela noite em que minha irmã e eu fomos a um restaurante de comida japonesa e veio uma porção de sushi a mais que nós não pedimos - e nem pagamos. Sushi é tão caro, não podíamos desperdiçar... E recusar comida não é de bom tom. Para encerrar o assunto comida, se bem me lembro, devo ter levado docinhos de festas para casa por uma ou duas vezes. Mais por vergonha do que por peso na consciência, que fique claro.

Em relação à área emocional, deixando de lado as infrações materiais, confesso que pratiquei falsos testemunhos. Alguns. Muitos. Enfim, várias e várias vezes. Na maior parte das vezes, havia um bom motivo. Era por amor. Se eu não mentisse para alguns, acabaria tendo que mentir para mim mesma. Seria muito pior. Deu certo até o dia que não deu mais certo, claro. Não me arrependo, mas hoje faria diferente. Também posso ter fingido que não vi mensagens no Whatsapp sobre sair para não precisar dar explicações e dizer com todas as letras que não estava a fim de sair. Só de vez em quando. Ou nem tanto...

Vamos ao que interessa: estou perdoada?

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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Insensíveis algoritmos



Redes sociais são parte da nossa rotina. Não tem jeito. Às vezes, não são duas, nem três, nem quatro... Perde-se a conta de quantas se tem. Uma para isso, outra para aquilo, todas para "socializar". Por mais que elas já estejam inseridas nas nossas vidas e tenham mil e um lados positivos, alguns são bem desagradáveis. Pelos simples motivo de que são controladas por algoritmos, ou seja, por códigos, computadores e máquinas, e não por pessoas, ou seja, por quem tem bom senso (espera-se), sensibilidade e respeito. Alguns detalhes deixam essa diferença muito clara.

Para alguns, esse fato pode não ter nenhum problema. Para mim, no entanto, já me incomodou (e incomoda) por diversas vezes. No Facebook, por exemplo, a possibilidade de ver o que se postou naquele mesmo dia há anos, pode tanto trazer tanto lembranças boas como ruins. É possível "personalizar" as notificações, excluir pessoas e dias específicos, mas quem consegue se lembrar de tantas datas? Aniversários, dia dos namorados, casamento e afins são mais fáceis. Mesmo assim, é praticamente impossível excluir todas as postagens que possam vir a não ser tão agradáveis. E dá um trabalhão. O preço a pagar é se deparar com uma postagem de 2011, que naquele momento fazia todo o sentido e, hoje, a única vontade de deixar aquilo no passado mesmo.

Sem contar quando a rede de Zuckerberg pergunta "onde estou trabalhando", quando vou ao meu perfil, como se ele estivesse incompleto. Quanta insensibilidade! Não basta ter que conviver internamente com a agonia de não-estou-trabalhando-por-favor-não-se-sinta-um-inútil, o Facebook me joga a questão na cara. Pior do que isso é quando eu abro o LinkedIn e lá vem a pergunta que não quer calar: "Onde você trabalha atualmente?" Aff. Sério? Se eu estou em uma rede social focada em networking, vou esquecer de colocar qual é o meu emprego atual? Se eu estivesse trabalhando, é óbvio que eu colocaria. Não precisa perguntar, não.

Os algoritmos não estão nem um pouco preocupados se vai doer quando, "sem querer", aquela pessoa que você deixou de seguir no Facebook para nunca mais ver reaparece de repente. Também não vão saber que, aquela pessoa da lista de possíveis conhecidos para adicionar, você não suporta nem ouvir falar o nome, muitos menos adicioná-la como "amiga". Por outro lado, duvido muito que seus amigos toquem no nome de quem eles sabem que você detesta e cortou relações há tempo. Dificilmente, eles vão nos lembrar daquela festa que não acabou bem, apesar da foto postada conter só sorrisos. De jeito nenhum, vão ficar constantemente perguntando se já conseguimos um emprego. Eles não são máquinas. São humanos. Ainda bem.

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sexta-feira, 19 de maio de 2017

Ciclo Natural


"Mulheres (...) com história de depressão devem ser observadas criteriosamente e o medicamento deve ser suspenso se a depressão reaparecer com gravidade". "O uso de (...) está associado ao aumento do risco de eventos tromboembólicos e trombóticos. Entre eles, trombose venosa profunda, embolia pulmonar, infarto do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais". "Aumento da pressão arterial tem sido relatado em mulheres em uso de (...)". "Alguns estudos sugerem que o uso de (...) pode estar associado ao aumento do risco de câncer de colo do útero em algumas populações de mulheres". "Um estudo mostrou que o risco de diagnóstico de câncer de mama foi ligeiramente maior em mulheres que utilizaram (...) do que nas que nunca utilizaram".

"Reação muito comum (ocorre em mais de 10% dos pacientes que utilizam este medicamento): cefaleia (dor de cabeça), incluindo enxaqueca, sangramento de escape". "Reação comum (ocorre entre 1% e 10% dos pacientes que utilizam este medicamento): vaginite (inflamação na vagina), incluindo candidíase; alterações de humor, incluindo depressão, alterações de libido, nervosismo, tontura, náuseas, vômitos, dor abdominal, acne, dor nas mamas, aumento do volume mamário, cólica menstrual, retenção hídrica (inchaço), alterações de peso (ganho ou perda)." 

A lista continua, mas vou parar por aqui. Afinal, está tudo na bula. E, você, com certeza já leu com atenção a bula do seu anticoncepcional, certo? Espero que sim. Só para deixar claro, esse post não é para demonizar o uso da pílula. Não. Ela é um remédio, de tarja vermelha, ou seja, serve para tratar doenças, como a síndrome do ovário policístico, que aflige inúmeras mulheres. Por motivos como esse, é óbvio que a pílula não deve ser dizimada da face da Terra. E cada mulher sabe o que é melhor para si. Merece respeito e acolhimento, como todas merecemos. Isso é sororidade. Dito isso, esse post é sobre a minha experiência pessoal e não precisa concordar, nem discordar. Se for útil para refletir, já está ótimo.

Depois de cinco anos e dez meses tomando um comprimidinho todo santo dia (tirando os dias de pausa), parei. Foi no dia 20 de fevereiro, um dia depois do meu aniversário e de acabar a cartela. Amanhã, dia 20 de maio, são três meses "limpa". No começo, foi estranho. Parecia que faltava algo na minha rotina. Antes disso, quando pensei em parar, li vários textos na internet. Em um deles, a autora falava que, para a mulher, a pílula passou de sinônimo de liberdade - quando foi lançada nos anos 1960 - para sinônimo de prisão. E faz todo o sentido. Hoje, em um namoro, normalmente, qual é a responsabilidade do homem em não engravidar a parceira, se ela toma anticoncepcional? ZERO. A mulher fica 100% responsável por não ocorrer a fecundação. Eis mais uma faceta do machismo nosso de cada dia. Até o Junior Lima falou sobre isso no Altas Horas, em abril. Não é por acaso que a pílula anticoncepcional masculina não foi liberada até hoje. Em outro texto, a autora fala sobre a aniquilação do tesão. Não só sexual, mas de vida, de justiça, de sonhos.

Certa vez, fui à ginecologista e comentei que não sabia se devia continuar com a pílula. Afinal, já eram anos indo na farmácia todo mês e comprando aquela caixinha - sem receita, como é de praxe. A médica nem ouviu direito e respondeu: "Não se mexe em time que está ganhando". Nem cogitou a possibilidade de outro método contraceptivo. E eu fiquei com vergonha de continuar no assunto. Em todas ginecos que fui, nenhuma perguntou: "Você tem histórico de trombose na família?"; "Você já teve depressão?"; "Você sabe os riscos de tomar anticoncepcional?"; "Você conhece os outros métodos contraceptivos?"; "Você conversou com o seu parceiro sobre a melhor proteção para vocês?". Nunca. Minha memória não é maravilhosa, mas não lembro mesmo de ter ouvido qualquer uma das perguntas acima.

Tudo são flores nessa minha nova empreitada? Claro que não. Minha pele ficou mais oleosa e as espinhas deram o ar da graça. Muitas, principalmente internas. Típicas de disfunções hormonais. Meu cabelo ficou mais oleoso e começou a cair bem mais do que o normal. Até emagreci. Ou, mais corretamente, perdi líquido. Desinchei. A insegurança de não saber quando a menstruação vai vir incomoda. Antes era muito mais fácil. Sabia exatamente quando começava e quando terminava. Mas com o tempo acostuma. E os aplicativos de celular - a tecnologia - está aí pra isso. Só dar um Google e listas de apps para controlar o ciclo menstrual surgem. Hoje, já sinto melhora na pele, no cabelo e nada que um pouco de paciência e uma visita à dermatologista não ajudem.

Não é uma decisão fácil. Nem deve ser tomada de um dia para o outro. Pense, avalie, reflita, leia, converse, pense mais um pouco e só então decida. Tudo bem tomar a pílula, mas tome por ser uma decisão única e exclusivamente sua. É seu direito. Eu parei pelo longo tempo que já estava tomando, pelo medo dos efeitos colaterais e por querer voltar a entender o meu corpo, meus humores e minha natureza. Tomava por conveniência. Nesse ano de mudanças na minha vida, antes de tudo, vi que elas precisam vir de dentro. O fato é que as mulheres precisam saber que há outras opções. Informe-se! A minha foi parar.

"A identificação da mulher com a natureza é perturbadora. Os ciclos da natureza são os ciclos da mulher: lua, mês, menstruação”.
Do livro Mulher: o negro do mundo, de Malcolm Montgomery (1997) 

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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Leve o cachorro passear


Pode soar um tanto quanto óbvio, mas nem por isso não merece ser dito. A dica é essa mesma do título, que você acabou de ler: leve o seu cachorro passear. Depois daquele dia estressante de trabalho, naquele sábado de sol ou naquele domingo em que a preguiça reina: leve o seu cachorro passear. Vença a vontade de ficar o dia todo no sofá, prepare o saquinho para recolher o cocô, coloque um calçado confortável, vista a coleira no animalzinho (ou animalzão) e está tudo pronto.

Ter um cachorro de estimação é uma experiência fascinante. Trabalhosa, é verdade. É vacina, comida, banho, tosa, antipulga, carinho, muito carinho, e, claro, os passeios. Não li a respeito, nem procurei estudos científicos, mas os dogs de hoje devem ser muito mais sedentários se comparados aqueles de outrora. Assim como os donos. Arrisco dizer que os nossos pets convivem menos com os seus semelhantes. E nós? Idem. Às vezes, pego-me pensando o que a Princesa, minha cachorrinha, "pensa" sobre disputar a atenção com o meu celular que está sempre por perto.

Pois bem, e por isso mesmo, vamos a alguns benefícios de levar o bichano explorar todos os postes e canteiros possíveis. Em primeiro lugar, é uma atividade física para ambos. Em segundo, é um exercício de viver em sociedade. Para os humanos. Tem que ter paciência, jogo de cintura se o seu canino gosta de um escândalo, saber respeitar quem não quer ser incomodado ou o contrário, parar quando o outro quer fazer um carinho e diversas outras situações. Conviver com o próximo, basicamente. Além disso, ainda tem a cara de felicidade do peludo.

Não cabe aqui segredar que a ideia desse texto surgiu depois que, numa tarde dessas, uma menina, que devia ter seus 10 anos, ficou olhando para a minha yorkshire enquanto nos cruzávamos na calçada. Eu notei e a Princesa também. Logo que passarmos, olhei para trás e a garotinha também tinha virado o rosto. Sorriu para mim. Pode parecer tolice, mas esse sorriso mexeu comigo. Além desse, foram e são tantos outros. Os diálogos curtos, mas felizes, trocados dão-me certa esperança. É, de que o mundo pode ser um lugar melhor. Afinal, os cachorros não estão aqui para nos lembrar de que somos feitos de carne, osso e amor? Leve o seu companheiro ou companheira passear e veja com os seus próprios olhos. Ah, não esqueça o saquinho. Vivendo em sociedade, né?

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sexta-feira, 5 de maio de 2017

Aquela voz

Imagem: Pintura de Dimitra Milan

Deveria ser algo natural. Ou, pelo menos, um pouco menos difícil. Não sei se é a sociedade materialista em que vivemos, a educação dada pelos pais ou o próprio medo de se conhecer. Talvez todos juntos. Uns mais, outros menos. O fato é que ouvir a minha própria voz me parece uma tarefa tão árdua. Essa, conhecida como intuição, parece fugir ao meu alcance. Como se um botãozinho da alma tivesse dado tilt. Ou está em manutenção. Não devo ser a única.

Não tem como falar desse tema sem lembrar de uma das mais intensas referências da minha monografia, finalizada em junho passado. Definitivamente, o livro Mulheres que correm com os lobos, da Clarissa Pinkola Estés, não é um livro que se esquece fácil. Aliás, não é um livro que se lê fácil. Nas mais de 500 páginas de histórias, lágrimas e aconchego, fica mais do que claro que a intuição é a essência das mulheres. Não se trata daquela intuição feminina machista e superficial. Não. Trata-se da ligação inexorável entre a mulher e a sua verdadeira natureza - e toda a força inerente a esse elo.

Lembro-me da primeira vez que senti que tomava uma decisão única e exclusivamente pela minha própria vontade. Foi uma sensação diferente. Eu não tive dúvida de que era aquilo que eu queria. Dane-se o que outros pensavam! De fato, não me arrependo da decisão que tomei. Também me lembro de quando não ouvi a minha intuição, deixei para lá. Tive medo de falar. Até hoje, não passa um dia sem que eu não me lembre dessa falha. Aprendi que o intragável "se eu tivesse..." não combina com a intuição.  Com ela, não tem dessas coisas.

Hoje, sinto como se eu estivesse em uma espécie de limbo. A sensação é de me afastar do que sou, enquanto tento me aproximar do que sou. Uma confusão que desgasta, uma estranheza que cansa. Os pensamentos se embaralharam e as batidas do coração se descompassam. Talvez seja uma urgência desnecessária querer "exercitar" a minha intuição. Quem sabe ela vem com o tempo. Não sei. Tenho pressa. Por ora, fecho os olhos e respiro. E espero meu encontro comigo mesma.

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sábado, 11 de março de 2017

Dia 30

Chegamos ao fim. Foram mais vitórias do que derrotas, é verdade. Dias difíceis, outros um pouco menos. Nunca é fácil. Eu sei, ainda há muito o que conquistar. Afinal, amanhã é novamente o Dia 1.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Dia 29

Na vida, não temos controle sobre coisa alguma. Mas sempre há uma exceção: nossos pensamentos e, logo, nossas ações. É mais do que suficiente.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Dia 28

É muito mais do que me olhar no espelho e ver a pele sem machucados. É sobre autoconfiança, autoestima, segurança. Coragem.

quarta-feira, 8 de março de 2017

terça-feira, 7 de março de 2017

Dia 26

Parece que foi ontem que a contagem começou. Desde lá, já sinto menos impulso de mexer na pele. Ou não ser tão impossível superar a dermatilomania.

domingo, 5 de março de 2017

Dia 24

Melhor parar gradativamente até parar de vez do que parar abruptamente e depois voltar tudo outra vez.

sábado, 4 de março de 2017

Dia 23

Tem quem diga que para perder um hábito basta 30 dias. Outros apostam em 66 dias. Eu já acho que é a vida inteira...

sexta-feira, 3 de março de 2017

Dia 22

Quanta força de vontade podemos ter? Quanta força de vontade podemos desenvolver? Quanta força de vontade podemos sentir? Quanta força de vontade...

quarta-feira, 1 de março de 2017

Dia 20

É preciso dominar a mente. É preciso dominar os pensamentos. É preciso dominar as mãos. É preciso dominar os dedos. É preciso dominar a mim mesma.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Dia 19

19 é um número bonito. É a data do meu aniversário. Já vale como um bom motivo para deixar o meu rosto em paz por mais um dia.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Dia 18

O nível da minha autoestima é diretamente proporcional à quantidade de vezes em que consigo vencer a tentação de mexer no meu rosto.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

sábado, 25 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Dia 15

"Ah, mas tu tens que se ocupar." Ir para a faculdade, ir para o estágio, fazer os trabalhos, ir no supermercado, almoçar, jantar, lavar a louça, secar a louça, levar a cachorra passear, ler, tomar banho... E sempre sobrava tempo para machucar a pele.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Dia 14

Se fumantes viram ex-fumantes, drogados viram ex-drogados, alcoólatras viram ex-alcoólatras, eu também consigo. Com certeza, eu consigo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Dia 13

"Aprender um hábito novo é muito mais fácil do que abandonar um antigo." Aleksandar Mandic

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Dia 12

"Ah, mas isso é bobagem!"
"É frescura dela!"
"Tua pele vai ficar toda marcada, Priscilla! Para!"
"Vai em uma dermatologista!"

Não é fácil assim. Antes fosse.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Dia 11

Depois de uma recaída, a vontade é desistir de tudo. Que se dane! Mas não. Não!!! É preciso recomeçar de novo, e de novo, e de novo...

domingo, 19 de fevereiro de 2017

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Dia 9

Post-it espalhados pelo quarto, notas no celular, notas no desktop do notebook, lembretes mentais... Tudo para lembrar: manter as mãos longe do meu rosto.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Dia 8

Eu mereço ficar com a pele bonita. Eu mereço ficar com a pele bonita. Eu mereço ficar com a pele bonita.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Dia 7

Se o dia estava triste, era motivo para mexer na pele. Se o dia estava feliz, por alguma razão, também era motivo para mexer na pele. Se o dia estava mais ou menos, também era motivo para mexer na pele. Chega.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Dia 6

É a minha meta mais importante para 2017. Era também a mais importante de 2016, 2015, 2014, 2013, 2012...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Dia 5

Nebacetin, Minancora, gel secativo, base, corretivo... Tentativas de encobrir uma pele que não precisaria ser encoberta.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Dia 4

A vontade é cobrir todos os espelhos que existem no mundo. No banheiro, no quarto, no elevador, no provador da loja... Respira fundo. Inspira. Expira.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Dia 3

Desde quando eu faço isso? Desde que eu tinha uns 14, 15? Adolescente. Mais de 10 anos machucando a pele do rosto sem motivo? É.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Dia 2

Menos de uma semana para a minha formatura da faculdade. Vou ficar longe da minha pele. Vou ficar longe da minha pele. Vou ficar longe da pele.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Dia 1

Dermatilomania: vício/mania/técnica de auto sabotagem que consiste em mexer/cutucar/ferir a pele do rosto sem necessidade.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017