sábado, 3 de agosto de 2013

Só comigo

Tem coisas que só acontecem comigo. E estou falando de coisas boas, não de coisas desagradáveis, como costumam falar por aí. Como o episódio da menina que me deu um beijo numa manhã de sábado durante mais um dia de horas perdidas em um emprego insuportável. Talvez esses momentos aconteçam comigo por eu ter ficado mais sensível ao que realmente importa nessa vida incrivelmente louca. Ou o cara lá de cima tem pena de mim e manda umas pegadinhas do bem para eu abrir uns sorrisos. Whatever, eu realmente acredito nas artimanhas do destino e que eu atraio essa gente que me aparece do nada e me marca de um jeito todo especial.
Pois bem. Inverno do inferno em Caxias do Sul, quatro míseros graus na serra gaúcha. Nem quero saber quanto estava a sensação térmica. E eu pegando dois ônibus. O frio (e outras coisas mais) anda deixando meus nervos à flor da pele. Eis que no segundo ônibus, entrei e procurei um lugar vago. Sempre procuro por dois bancos vazios, colados um do lado do outro. Não que eu não goste de sentar do lado de uma pessoa estranha, mas sofro de um ligeiro egoísmo nessas horas e prefiro sentar sozinha. Eu e minha bolsa no banco do lado. Eu e meus pensamentos. Eu olhando pela janela o roteiro que já sei de cor e salteado.
Até que quase chegando ao meu destino, a mulher já com os seus sessenta anos se vira para mim e começa a conversar comigo. Ela me chamou e disse: "Pega um!", oferecendo uns papéis dobrados que estavam em uma divisão da bolsa dela. Essa maldita realidade brasileira me fez fechar a cara e olhar desconfiada para ela. Ainda tive a audácia de perguntar se tinha que pagar. Fui muito mal-educada. Ela disse que não. Então, observando a minha reação, decidiu ocupar o banco do meu lado que estava vago. Na verdade, eu tirei a minha bolsa de lá quando ela veio vindo. Antes disso, uma passageira que estava prestando atenção na cena, disse que queria pegar um papel para ela. Depois de ler a mensagem e dar risada, ela disse para a dona da ideia que fazia tempo que ela não ria. E então desembarcou. Sabe aqueles baques que nos deixam meio desconcertados? That's it.
O ônibus deu partida novamente e começamos a conversar. A senhora me disse que escreve as mensagens e recorta tudo bonitinho antes de dormir, mas que ninguém sabe dessa atividade secreta, nem o marido dela. Porque se ele soubesse, diria que ela é louca. (Esse conceito totalmente errado de loucura que usamos, hein.) Isso faz bem para mim e para os outros, ela disse. Contou ainda que estava indo ver a irmã, que estava de aniversário. Disse que a irmã não sabia que ela estava indo, ela ia fazer surpresa. E de presente estava levando flores que retirou do seu jardim. E mais um lenço. Conversamos sobre a vida, sobre a filha dela, sobre a descrença no amor e nos relacionamentos. Filosofamos em pleno ônibus urbano. Num frio do cão.
Eu não sei o nome dela. Eu nem sequer lembro-me do rosto dela (tenho sérios problemas em lembrar o rosto de quem vejo por pouco tempo). Ela não sabe o meu nome. Ela também não deve lembrar o meu rosto. Mas nós duas não vemos esquecer uma da outra. Por quê? Por que quem nos toca no coração fica para sempre dentro de nós. E eu sempre vou desejar que ela curta muito as viagens de sua aposentadoria. Ela disse que tinha ficado 15 dias em Paris e estava de malas prontas para Israel. E andando de ônibus. E eu sei que de um jeito ou de outro, ela me deseja sucesso nas minhas futuras aventuras como jornalista.
E assim eu fui para mais um dia de estágio. Levando no bolso a mensagem que peguei na bolsa dela. E no rosto um sorriso sincero. Olhei para o céu e sorri. E pedi que aconteçam mais e mais e mais vezes. E que, por favor, eu esteja sempre de olhos abertos, ouvidos aprumados, mas, principalmente, com o coração leve para poder desfrutá-los. Papai do céu, obrigada. Tu sabes que é disso que eu gosto. E que sou feita de amor, amor e mais amor.

"Exercício para melhorar o humor:
- Olhar com humor por tudo o que estiver na frente (ex: na cozinha, no quarto, no jardim).
Quando estiver lavando a louça, alimentando o cão, limpando algo (ex: a casa), lavando a roupa.
Olhar sempre com bom humor as tarefas.
Olhar o mundo com olhar cintilante.
Aceite as pessoas como são. Assim será mais fácil conviver e ser feliz."