segunda-feira, 13 de maio de 2013

Fome... De quê?


Eu tenho fome, mas não sei de quê. Estou suspeitando que seja fome de vida. Gula de sorrir, amar, vibrar, beijar, pulsar. Eu já não sei se prefiro a vida mais gelada ou mais quente, saindo fumaça, pegando fogo ou gelando a garganta. Perdi a noção de um e de outro. Parece que misturei o leve com o picante, e não sinto mais o gosto de nenhum. Não consigo me decidir entre o doce e o salgado. O sorriso ou a lágrima, o afago ou a distância. Eu ando confusa, indecisa, medrosa.
Certa noite, o gosto da pimenta tomou a minha língua, meu corpo, meu espírito. Na hora, virei sua defensora. Só que agora desconfio que passei a ter medo dela. Tenho medo de me queimar, de sentir a minha alma arder, de vê-la chamuscar. Apesar de saber que eu gosto de tudo que pega fogo, não sei se, após a degustação, a doída cicatriz vale à pena. Gosto do fogo-alto, da chama flamejante, que chega a dar medo e é poderosa, quase teimosa, com cara de dona de si. Só que, em um simples descuido, ela anda queimando e deixando tudo com um ligeiro gosto de brasa. Brasa essa que está tirando o gosto da minha comida, da minha vida, da minha alma.
Parece que estou vivendo em banho-maria. E eu não suporto a demora que é esquentar algo em banho-maria, uma agonia infernal toma conta de mim. Espero, espero, espero. E não sei o que esperar nem de mim mesma. Meus pensamentos viajam, voltam, dão loops e depois voltam novamente até o subsolo. Eu penso, penso, penso e quando menos espero estou transbordando, derramando lágrimas aqui, ali e onde ninguém estiver olhando. Eu penso e não resolvo nada. Eu penso e acho a solução, mas a coragem é mais rápida e já me deixou nua, de novo. E eu já não sei o que pensei que sabia.
Acho que sei o que me aconteceu e que me deixou assim, boiando em um mar de ansiedade, expectativa e talvez medo do que possa acontecer. Antes a minha vida tinha sal, açúcar, pimenta e todas as demais especiarias na medida certa, do jeito certo, como eu nunca achei que fosse possível. Ela tinha muito mais gosto, muito mais sabor, muito mais amor. Só que me foi tirado tudo isso. Ou quase tudo. Aos poucos, afastei-me e fui afastada dessa receita que me dava água na boca, força na alma. Agora as medidas estão todas atrapalhadas, eu não sei mais o quanto de cada coisa é bom para mim, preciso me reorganizar e não sei nem por onde começar. Preciso testar novas receitas com ingredientes diferentes, mas busco sempre o gosto final daquela que me tanto apetecia. Eu nunca desisto.

Eu me perdi em meio ao nosso tempero, e agora temo o retorno àquela minha insipidez.