quinta-feira, 18 de abril de 2013

Eu só preciso de ar

Esconder a fraqueza com uma máscara de frieza. É isso. E não sou só eu, são milhares por aí. Talvez milhões. E já foi pior, muito pior. Já doeu muito mais, já me envergonhou demais, já me fantasiei o suficiente. Não sei, posso estar cometendo um terrível engano ou posso estar culpando quem não devo, mas aprendi a ser assim. Dia a dia, como se aprende a falar, a escrever, a vencer e a perder. Foi tudo muito indiretamente, tudo muito implícito, mas foi. Mais fácil fingir do que se mostrar, mais fácil mentir para os outros do que olhar para dentro. Mais fácil encobrir do que descobrir a real causa, a raiz de tudo, o começo do mal.
O mecanismo é automático, quase imperceptível para a maioria. Só que uma vez decodificada a mensagem, não tem mais como se enganar. Fica impossível mentir para mim mesma. É simples e complexo. Quanto mais dói, mas eu pareço fria. Quando mais rasga, mais eu pareço íntegra. Quanto mais verdade, mais eu me encubro de mentiras. Quando mais fraca, mais pareço feita de ferro. Quanto mais escuro, mais acendo luzes artificiais. Quanto mais lágrimas, mais sorrisos falsos. Quanto mais insegurança, mais falsa calmaria. Quanto mais vazio, mais máscaras.
O baixo astral me rodeia, me cerca, me enlouquece. O pensamento negativo aos poucos vai corroendo a minha alma, vai sugando a minha esperança, vai escurecendo o meu céu interior. Eu, que sempre adorei me banhar com a luz do sol, deixo-me agora abater por uma nuvem cinzenta. A minha tímida, ínfima e discreta força de vontade tenta sobreviver de todos os jeitos possíveis, agarra-se a frases desse e daquele, a sorrisos de quem me faz sorrir, a devaneios que me prendem no chão. Eu acredito e não acredito, milhões de vezes em um minuto. Eu tento remar contra a correnteza, eu tento nadar contra a maré, eu tento procurar outro mar, mas eu acabo entrando no mesmo barco, ou caindo dele, ou me afogando. Talvez eu já esteja sem ar e nem tenha me dado conta. Vivo respirando por aparelhos numa vida que não é minha.
Eu quero ir embora. Eu preciso, antes que essa poluição envenene meus sonhos por completo. Antes que eu deite na cama e só enxergue pesadelos. Eu cansei desse pessimismo entre quatro paredes, de manhã, de tarde, de noite. Eu quero acreditar, eu quero me amar. Eu só quero é me ouvir, eu só quero é ser ouvida, eu só quero é ser compreendida. Eu cansei de pagar por escolhas mal feitas de quem deveria dar o exemplo, eu cansei de me culpar sem saber que estava me sentindo culpada, eu cansei de ficar na linha de guerra de uma batalha que não tem nada a ver comigo. De fingir não ouvir, mas lembrar do que foi dito. De fingir não me atingir, mas chorar antes de dormir. De fingir não sentir, mas doer muito. Machuca admitir, mas eu quero a solidão, eu quero a distância, eu quero a paz longe daqui. Estou farta de ter que reacender, sozinha, a chama vacilante da minha confiança infinitas vezes. É energia mal canalizada, que poderia estar sendo mais bem aproveitada. É algo com que eu não precisaria me preocupar, mas vira sempre o centro das atenções.

Eu cansei de me sentir sufocada ao lado de quem deveria ser o meu oxigênio.

sábado, 6 de abril de 2013

Rubor

É incrível a minha capacidade de ficar vermelha. In-crí-vel. Sempre tive esse defeitinho presente nos meus dias, desde os anos no colégio. Ele se prolongou e  hoje atormenta-me também na faculdade. Só que agora ele parece acontecer mais seguido, mais sem eu esperar, mais de improviso. É uma reação do meu corpo muito louca, verdadeira e quase sempre constrangedora. Mais uma das tantas "esquisitices" que meu querido e amado corpo é capaz de realizar. Essa "indelicadeza" ele poderia deixar para lá, mas, não, ele insiste em ser dedo-duro.
Ser tomada de rubor parece como um vulcão entrando em erupção. Em milésimos de segundo, a cor vermelha invade as minhas bochechas, deixando-as da cor do amor. Ou da dor, depende do contexto. Sinto como se o sangue que estava percorrendo as minhas veias ao longo de todo o meu corpo, subisse e viesse todo para o meu rosto. Como se o tronco deixasse de precisar de glóbulos vermelhos por uns instantes. O sangue sobe com toda a força para a cabeça e às vezes parece se infiltrar em meus neurônios e assim faz com que eles fiquem lentos, vagarosos, sonolentos. Um caos. Quase como dar um branco, só que vermelho. Por que ficar vermelha sem gaguejar ou soltar um balão nos instantes seguintes da ruborização acaba nem tendo graça.
Tudo acontece tão rápido. Parece como um orgasmo, só que a energia vem toda para a face. E não é nem um pouco gostoso. Não rola fogos de artifícios pelo corpo nem nada. Só tem o calor, que ele invade o meu corpo de um jeito que parece que vai me sufocar. Não importa se lá fora está congelando, dentro de mim eu pego fogo, eu queimo. Preciso me desfazer de jaquetas, casaquinhos, agasalhos. E essa "ebulição" acaba por atingir, além de minha face, também o meu colo. Manchas vermelhas sempre dão o ar da graça em alguma situação minimamente desafiadora. Como eu sou muito branca, o contraste fica algo não muito agradável de ver. Nessa hora, lenços são bons álibis para disfarçar, logo acima do meu sutiã, manchas de minha sempre velha e sempre nova timidez.
Não tem como resistir, não tem como impedir. É uma descarga de energia involuntária. Quando eu menos espero, ela está lá me importunando. Às vezes eu sei que ela virá, noutras eu tomo um susto. Na mesa do bar, na discussão de um trabalho em grupo na facul, na apresentação do trabalho na frente de everybody, num comentário de alguém que me pega desprevenida, numa mentira contestada... É vapt-vupt. Um segundo e meu inconsciente revela que não está confortável. Nem um pouco à vontade.
Tudo, porém, tem seu lado bom. Aqui vai minha chance de defesa ao meu enrubescimento: às vezes eu penso que talvez seja um bom sinal ficar um pimentão. Sinal de que aos poucos estou conseguindo me abrir, expor minha opinião sem tanto receio sobre o que os outros vão falar ou pensar. Talvez seja um sinal de que eu estou me arriscando mais, mesmo em situações que outros podem pensar serem banais. Para mim chega a aparecer que é sempre uma pequena vitória ficar vermelha. Tirando situações realmente desagradáveis, ela mostra que "calma aí, tu consegues". Passado o susto e o calorão, eu digo: "Consegui". E da próxima vez eu farei melhor. E depois melhor ainda. E sempre.

"Vai. E se der medo, vai com medo mesmo." E com as bochechas vermelhas.

PS: Há também quem diga que mulheres que ficam vermelhas subitamente são mais sexy. Eu é que não vou duvidar.