terça-feira, 27 de novembro de 2012

Um pouco mais

Muitas vezes eu não me dava conta de que cortava pequenos prazeres por puro medo. Talvez não fosse medo, talvez fosse essa nossa mania de não prestar atenção nos detalhes e deixar momentos preciosíssimos para depois, para nunca mais. Que bobagem... Burrice pior só mesmo ouvindo o "plim" que uma hora sempre aparece para nos avisar de tal besteira e não mudar, deixar tudo igual.
Talvez, essas minúcias do meu dia-a-dia podem parecer besteira para alguns. Whatever. Acabei percebendo que eu sempre ouvi música no celular com o volume baixo. Baixo demais. Nunca chegava nem até a metade do volume mais alto possível. Dava até para ouvir os chiados das conversas dos outros. Tudo isso porque eu morria de medo de ficar surda, de parar de ouvir bem. Que exagero! Hahaha Sempre assisti muito Jornal Nacional com seus inúmeros "foi descoberto que tal coisa faz mal à saúde e os médicos alertam que...". Todo esse blábláblá. Até que um dia eu resolvi levantar um pouco mais o volume da música que estava saindo pelos meus fones de ouvido. Não muito mais, ainda estava longe de chegar ao máximo (também não quero estourar os meus tímpanos). A diferença de ouvi-la é que foi gigante. Comecei a escutar realmente a música, que é quando ela entra pelos nossos ouvidos e reverbera pelo corpo inteiro, fazendo o coração bater mais acelerado. Passei a ouvir detalhes que jamais havia ouvido, tornou-se inevitável não querer cantar junto. Mesmo sem som (ninguém precisa pagar os seus pecados tendo que ouvir a minha voz que decididamente não nasceu nem um pouco afinada), eu adoro cantarolá-las. E, com toda a certeza, eu jamais vou ficar surda por levantar um pouco mais o volume. As minhas voltas para casa de ônibus é que ficaram muito mais poderosas. E revigorantes. E inspiradoras.
Sem nem pensar direito, sempre poupei mu-mu, doce de leite, leite condensado, geleia, marmelada, essas coisas. Passava o mínimo necessário para cobrir o pão ou a bolacha. Não sei de onde veio essa "mania", talvez desse meu medo de extrapolar, de exagerar. Sempre tão contida, sempre tão medrosa... Hoje eu me lambuzo de tanto mu-mu que eu despejo sobre a fatia de pão. Se for leite condensado molengo, deixo escorrer por um dos lados da bolacha. Só para passar a língua no que está "sobrando". E ainda lambo a faca no final, para fechar com chave de ouro. Parece que o doce fica ainda mais doce, ainda mais gostoso.
Acredito que aos poucos eu vá me dando conta do que eu faço inconscientemente e que faz o meu dia ser mais-ou-menos ao invés de ser sempre mais. Essas coisas bobas, mas que me fazem sorrir mais, sentir mais, viver mais. Sei que tenho outros tantos pequenos (ou grandes?) desafios para vencer. Estar mais atenta a mim mesma é somente o que eu preciso, passando a reparar nos meus hábitos, um de cada vez. E é assim que se muda uma vida inteira.

Porque eu aprendi que o detalhe sempre faz toda a diferença. Para o mal ou para o bem.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Run Away

Teve um dia naquele melhor verão da minha vida que eu jamais vou esquecer. Todos os nossos dias são inesquecíveis, mas aquele momento foi diferente. Eu inventei (mais) uma mentirinha qualquer, que estava indo colocar cartão no meu celular, que estava indo comprar pão, que eu estava indo dar uma volta até o almoço ficar pronto. Coloquei o meu biquíni, que passou totalmente despercebido pelo vestido que coloquei por cima e pronto. Tinha que servir. Peguei meu celular, meus óculos de sol e toda a minha vontade de ver ele e fui. Meia-dúzia de quadras depois, até sentir os meus pés na areia, e lá estava eu "dando uma passeada" embaixo do guarda-sol dele. 
O tempo voou - como sempre - e meu celular apitou. Mais cinco minutinhos, por favor. Meu celular voltou a apitar. Odeio como essas tecnologias às vezes conseguem ser tão inoportunas. É claro que eu estava atrasada para o almoço em casa, já estavam começando a desconfiar. Onde essa guria se meteu em pleno meio-dia de um domingo de verão na praia? Ela não iria voltar logo? Droga. Eu tinha que voltar, não tinha escapatória.
Lá vou eu de novo. Toda despedida é uma nova despedida. A dor é a mesma, mas parece sempre nova. Nossos corpos ainda estavam com gosto de água salgada. Eu, que morro de medo do mar, momentos antes dei a mão a ele e me deixei levar. Mais um beijo, mais um abraço, mais um olhar, mais um sorriso. Ok, agora não dá mais mesmo, o tempo se esgotou. Tchau. Mentalizei: "Força, garota! Nada de deixar as lágrimas escorrerem - de novo". E... Ação! Começou a minha cena de filme particular.
Eu me lembro de que sai correndo. Assim que virei as costas, comecei a correr, correr e correr. Minhas pernas eram pura pressa, mexiam-se a toda velocidade quase que involuntariamente. Eu não olhei para trás nem por um segundo. Se eu olhasse, eu voltava para aqueles braços. Juntei todas as minhas forças (que não são muitas) e não virei o rosto. Continuei olhando para frente, sem enxergar nada. Corri sem parar. Atravessei as ruas sem nem olhar se vinham carros. É óbvio que nem precisava tanta urgência, um minuto a mais ou menos não iria fazer diferença naquele momento. Eu não estava preocupada com o que iria encontrar pela frente, mas, sim, com o que deixei para trás. Eu corri porque assim ficava muito mais complicado dar meia-volta e voltar para ele. Eu corri porque a vontade de voltar era gigante, imensa; tenho certeza que ela venceria as minhas pernas se eu andasse calmamente. Eu sabia que se voltasse, estaria muito encrencada, mais do que já estava. Minha situação já não era muito boa com apenas uns 15 minutos de atraso. Imagina se fosse mais. Cheguei na entrada do prédio ofegando. Fiz um coque para disfarçar meu cabelo úmido e chamei o elevador.

Parece que estou vivendo a mesma situação hoje, só que dessa vez é em câmera lenta e em um cenário muito mais abrangente. Os personagens são os mesmos, com algumas diferenças. Eu continuo no mesmo lugar, desempenhando o mesmo papel.
Ou corro novamente e enfrento todo o nó na minha garganta que só de pensar toma o meu corpo inteiro, ou volto e continuo enfrentando o que eu já sei de cor e salteado, com tudo aquilo me dói e tudo aquilo que me faz sorrir?