quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Amém

A lua está cheia desde segunda-feira e eu só percebi ontem à noite, ao final da aula. Perdi uma noite do seu ciclo, um baita desperdício. Estava chovendo, deve ter sido por isso que ela passou despercebida pelos meus olhos. Para mim, em noite de lua cheia deveria ser obrigatório namorar ou fazer alguma coisa tão boa quanto. Ela é tão mágica, tão louca, tão uau. Enquanto a admirava, surgiu a vontade: fazer um pedido para ela. Pedir a ela que me abençoasse, a mim e a ele, a mim e as pessoas que levo no coração. Depois de ter feito o pedido, ali, pela janela do ônibus, perguntei-me se ela teria mesmo esse "poder". Um segundo depois pensei: claro que sim, toda obra de Deus é oração, toda obra de Deus é amor. Deus é a vida. 
Não lembro ao certo, mas acredito que até uns três anos atrás, eu rezava toda noite antes de dormir, sem falta. Se por acaso eu esquecia ou adormecia antes de juntar as mãos e declamar baixinho uma das três mais famosas orações, eu me sentia culpada no dia seguinte. Não poderia ter esquecido. Quanto à Ave Maria, eu curtia, mas passava correndo pela parte que falava "na hora de nossa morte", sempre achei exageradamente triste e um arrepio percorria o meu corpo toda vez que chegava a hora dessa frase. A prece do Pai Nosso nunca foi a minha preferida. Sei lá, acho que me parece masculino demais, tenso demais. Sempre gostei daquela do Santo Anjo, talvez por adorar a ideia (e realidade, para mim) de que um anjinho da guarda está sempre me protegendo e também cuidando de quem eu gosto. É bom, é reconfortante. Hoje em dia, quando quero, recorro só a ele. 
Quando ia à missa, ficava braba comigo mesma por ter deixado meus pensamentos viajarem para outro local e perder parte do discurso do padre. Realmente me esforçava para entender o que ele falava, captar a mensagem que ele queria transmitir. Raramente eu conseguia. Achava que morder a hóstia era pecado, ela deveria se dissolver na minha boca sem eu precisar "dar um empurrãozinho" com a língua ou os dentes. Hoje, nas raras vezes em que preciso ir à missa, durante o tempo todo me divido entre divagar por assuntos do meu interesse ou ouvir o que o padre fala, de propósito, para logo virar para a minha irmã e falar que aquilo está errado, que aquele padre está viajando. Quase sempre é revoltante, mas às vezes chega a ser divertido. Sem falar que não podemos abrir a boca ou rir, que já vem alguém nos olhar com aquela cara feia, exclamando mentalmente: "Calem a boca, suas mal-educadas!". Realmente, tudo muito triste.
O Osho me fez enxergar e me ensinou que rezar é amar. Ame que você estará rezando sempre, em toda hora e todo lugar. Sorrir, abraçar, fazer o bem a mim e as outras pessoas, me divertir, fazer amor, olhar uma flor e sentir o seu perfume, dizer "olá" para um cachorrinho e fazer um carinho nele, comer desfrutando calmamente o gosto e o aroma da refeição, enfim, tudo o que é feito do coração é a mais verdadeira forma de oração que existe. Duvido uma única pessoa rezar de verdade quando vai à missa, dentro daquele templo de concreto frio e sombrio, munido de uma expressão séria.
Hoje, quando quero falar com Deus, olho para o céu e começo a conversar com ele. Muito melhor do que olhar para o teto do meu quarto, mesmo sabendo que posso falar com ele em qualquer lugar que eu esteja. Se o céu está azul, ele está me ouvindo. Se o céu está cinza, ele também está me ouvindo. Falo aquilo que eu quero, aquilo que estou sentindo, não o que me ensinaram e eu nem entendi direito o que aquelas palavras da Salve Rainha significam. A sinceridade será sempre uma oração.

Seguindo o meu coração, estarei rezando aonde quer que eu vá.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

3º TOC140

ASSALTO// Socorro! / Levaram a minha alma / Assim sem mais nem menos / Deixaram-me nua de amor/ Vestindo apenas a minha dor. #TOC



Uhul! Fiquei em 24º lugar na classificação entre "Os 100 Melhores Poemas do 3º TOC140 - Poesia no Twitter", concurso realizado pela Fliporto, a 8ª Festa Literária Internacional de Pernambuco. O desafio era fazer poemas que coubessem em apenas 140 caracteres, tais como "tweets". Parabéns a todos!  Todos os 100 escolhidos receberão uma antologia com todos os "poeminhas" premiados. Infelizmente, não vou poder estar presente na Fliporto, em Olinda, dia 18 de novembro para receber em mãos o meu exemplar. Então, agora é só aguardar ansiosa a minha antologia chegar aqui na minha caixinha do correio! :)

sábado, 13 de outubro de 2012

Brincar é viver

Eu tenho pena de quem um dia deixou de ser criança. Deve ser uma vida muito triste, deve ser uma vida quase morta. Eu sempre fui a mais "brincalhona" das minhas irmãs - e nunca quero deixar de ser. Sempre dou um jeito de falar alguma besteira para aliviar o clima ou descontrair. Quase sempre é simplesmente para rir, uma das melhores coisas dessa vida. Dentro de mim, sempre tive muito orgulho disso, sempre gostei muito de ser assim. É a primeira vez que digo isso "em voz alta". Sei lá, devo ter nascido assim, mais propensa a não levar tudo tão a sério. Talvez eu vim para esse mundo com uma dose de distração - e de paciência, também - a mais do que o resto do pessoal.  Às vezes voluntária, porque brigar por picuinha é besteira. Às vezes involuntária mesmo, ouço algo e no instante seguinte já esqueci.
A vida, para mim, é como uma criança. Exige seriedade, mas nem tanto. Afinal, brincar é tão legal e nunca menos importante do que trabalhar, estudar e ganhar dinheiro. Tem a hora de fazer o dever de casa, mas também tem a hora de comer chocolate e me lambuzar toda, sem me preocupar se a camiseta vai sujar e se vai manchar. A vida, por mais pesada que esteja, sempre foi leve e deve continuar sendo. Fez dodói? Coloca um ban-aid que resolve. Vai cicatrizar. No final, aquela marquinha ainda vai nos lembrar de algo bom, por mais que na hora doeu bastante e a gente chorou escandalosamente.
No último sábado, aconteceu algo que quase me fez chorar. Acho que não posso descrever melhor uma criança do que contando essa cena da qual fiz parte. Eu estava sentada, na frente do computador, como sempre estou. Checando e-mails, jogando Paciência, lendo notícias, essas coisas rotineiras. Naquela manhã a única coisa diferente eram os meus pensamentos. Lembrava-me da noite anterior, dos minutos anteriores. De como estar com ele me faz bem, de como eu gosto... O último comentário dele, porém, deixou-me ansiosa. Devia haver um resquício de medo no meu rosto. A menina entrou com o seu pai e, enquanto ele era atendido, ela veio caminhando, devagar, em direção a minha mesa. Notei a presença dela, mas não a olhei logo. Esperei um pouco. Ela continuou avançando. Então, virei o rosto para ela, procurando os seus olhos. Uns milésimos de segundos depois e ela fala: "Posso te dar um abraço?". Ela, com aquela carinha, aquele jeito suave que só criança tem, fez uma pergunta que a maioria das pessoas passa a vida toda sem fazer. Inclusive eu, até hoje. E é uma das mais importantes. Mais simples e mais importantes. Na hora, eu quase levei um susto, porque jamais passou pela minha cabeça que aquela guriazinha que nunca tinha me visto na vida iria me oferecer um abraço. Respondi que sim, claro, com um sorriso gigante no rosto. Então ela veio, me abraçou e me deu um beijo na bochecha. Eu retribui o abraço e o beijo. Depois começamos a conversar e ela me contou mais sobre a sua vida, dos seus seis anos.
Talvez tenha sido um dos momentos mais lindos e puros que eu já vivi. Talvez ela soubesse - de algum jeito - que não está fácil e que um abraço é sempre bem-vindo nesses momentos. Talvez ela tenha gostado de mim, do meu jeito e só. Talvez ela aprendeu com a mamãe que abraçar faz bem e é de graça, não custa nada. Talvez ela aprendeu que todo mundo merece um abraço. Talvez...

A infância está perdida? A juventude está perdida? Quem está perdido são os adultos, eles e as suas regras que nunca funcionam. A vida não está perdida se resgatarmos a criança que mora em nós.

A gente nunca deveria parar de brincar.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Meus Sinceros Amigos

Ultimamente está me dando uma agonia danada devolver os livros para a biblioteca. Começou esse ano, no início do outono. Dá uma vontade de roubá-los, de não devolvê-los mais, escondê-los na bolsa e fugir para bem longe com eles. Não posso. Vou me complicar demais. O jeito é comprar um por mês (quando dá) e aguentar a ansiedade de ter aquelas histórias que me tocaram voltando para perto de mim, aqui do meu lado. Já tem tanta gente longe de mim, eles pelo menos não vão sair do meu lado. Pode ser apego, mas que seja mesmo. Gosto de vê-los, de tocá-los. Com eles eu converso, lendo-os. Com eles eu me desligo, acordada.
Os livros me ajudam a viver, fazem a vida melhor. São meus bons companheiros. De uma tarde de sol, de uma manhã de chuva, de uma viagem de ônibus, de um coração que bate. Parece que com eles a minha solidão diminui, parece que deixo de estar sozinha. Nunca substituirão uma conversa "real", olho no olho, mas chegam perto, podem acreditar. Às vezes dói, às vezes pode ser desconfortável. Vale a pena, de qualquer jeito.
Eles me entendem. Funcionam quase como psicólogos. Os livros e suas  frases que parecem exatamente feitas para mim - porque cada um deles sempre cai em minhas mãos na hora certa, na hora que era para ser - fazem o meu mundo quase parar, me fazem querer absorvê-las e lembrá-las para sempre. Os livros são o meu refúgio desse mundo frio, triste, sujo, esse mundo de adultos que eu odeio. Eu nunca quis fazer parte dele.
Ler é sempre bom, ler é sempre uma boa ideia. Ler me acalma, me emociona, me esquenta, me seduz. Nos últimos tempos, ler me faz chorar com uma facilidade incrível. Ainda não sei se isso é bom ou ruim, mas sei que é assim e para quê mudar? Deixa, deixa, deixa... Ler é um espetáculo, é um ato simples, mas com um poder incalculável. Ele coloca a pulga atrás da nossa orelha, começa a fazer cócegas e nos deixar inquietos. Ler me faz mudar para melhor. Ler é inspirador, acima de tudo.
Sabe o que é? Eu percebi isso faz pouco. Eles me dão coragem. Isso mesmo, os livros me enchem de coragem. Mandam o meu medo e a minha insegurança para longe, aquelas páginas os fazem diminuírem de tamanho, ficarem pequenos - do jeito que deveriam ser. Eles me dão coragem de contar a minha história, de fazer com que a minha voz seja ouvida. Por isso eu odeio ter que devolvê-los para aquelas prateleiras. É como se toda essa minha coragem que surgiu enquanto eu lia cada linha fosse evaporando, sumindo. Preciso resgatá-la, preciso ser forte.

Os livros já transformaram e vão transformar ainda mais a minha vida. A partir da minha história.