sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A Turma do Ensino Médio


Marcaram para uma sexta-feira à noite a famosa "janta da turma." Ao primeiro momento, quando fui adicionada no grupo do Whatsapp intitulado "3º C", eu imediatamente o silenciei. A ideia de se reunir novamente com o pessoal do ensino médio não me agradou. Não que os meus três últimos anos no colégio tenham sido ruins. Foram legais. Reencontrar o pessoal novamente, no entanto, era outra história... Não fazia tanto tempo assim que nós tínhamos nos visto. Foi na Copa do Mundo de 2014, em um jogo do Brasil quando ainda não havia acontecido o fatídico 7 x 1. Três anos só. 

Porém... Como sou uma pessoa até bastante influenciável, após um pedido um pouco mais insistente da minha amiga que também foi minha colega, topei ir para o churrasco. Seja o que Deus quiser, pensei. Chegou o dia e, de alguma forma, eu estava nervosa. Sempre tem uma tensão no ar nesses encontros, não? Espero que sim, porque senão vou me achar a antissocial problemática. Estaria lá a colega que eu invejava a extroversão, o guri por quem eu me apaixonei platonicamente, a outra colega que eu definitivamente não ia com a cara... Enfim, os personagens do ensino médio. Tenso.

Ainda bem que eu fui. No dia seguinte, uma das colegas escreveu no grupo que ela havia adorado "reconhecer" os companheiros das aulas impossíveis de Física. Essa talvez seja a palavra certa para descrever a sensação que eu tive, assim como ela. Sobre a colega que apresentava os trabalhos com uma tranquilidade absurda, percebi que o que eu queria era ter aquele amor próprio. Invejava a liberdade dela em ser o que era. Já a guria que o "santo não batia", descobri que também está na estatística dos desempregados. E que não é fácil, para ninguém. A primeira a casar e ser mãe continua a querer sair, viver, aproveitar a vida. E que o piadista do grupo também enfrenta dias tristes.

Mais do que isso, foi uma oportunidade de eu mesma ver como me transformei depois de oito anos e meio daquela noite da formatura. Reavaliar a pessoa, a mulher e a profissional que me tornei. Quem sou hoje, diferente daquela que fui. Gostei do resultado. Deu até um orgulho interno. Ainda há tanto para errar, aprender e evoluir, mas o que fiz até agora me acalenta. Sinto que estou na direção certa. Foi também uma oportunidade de perceber como, na essência, ainda somos parecidos. Somos jovens, um tanto perdidos. Estamos todos juntos, no mesmo barco. Mesmo que um para cada lado.

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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Na mão esquerda


Aconteceu durante um almoço em um movimentado shopping de Porto Alegre. Na mesa à frente da minha, uma senhora almoçava também. Era uma senhorinha mesmo, com as suas muitas décadas de vida. Rugas, reforçados óculos de lente, uma leve corcunda. Quem a acompanhava era a filha, provavelmente. Na mão que segurava o talher, notei que usava uma aliança. Logo pensei na possibilidade do marido já ter morrido e ela continuar a usar aquele anel dourado no dedo anular da mão esquerda. Desejei que sim. Que amor. Quanto amor.

Em seguida, lembrei-me do meu avô. Resolvi perguntar para a minha mãe, que estava comigo, se meu avô continua a usar a aliança, passados mais de cinco anos desde que a minha avó faleceu. Ela disse que não. Fiquei triste. Ela também. De alguma forma, seria uma homenagem à minha avó. E aos mais de cinquenta anos de casados que comemoraram com festa de Bodas de Ouro. Poucos símbolos representam tanto e são tão fetichizados como uma aliança de casamento. Naquelas gramas de ouro, está o compromisso de respeito, no mínimo, à pessoa com quem se divide a vida. Definitivamente, não é qualquer adereço.

De uns tempos para cá, venho reparando nas mãos dos homens e das mulheres. Mais deles do que delas. Não importa onde eu esteja. Virou quase uma mania. Esse símbolo do matrimônio (não me arrisco a classificá-lo do amor) atrai o meu olhar. Às vezes, quando a pessoa me desperta um pouco mais de atenção, começo a imaginar há quanto tempo casou, como deve ser o parceiro ou parceira, se é realmente feliz, quantas crises já superaram, se ainda existe amor... Sou jornalista de formação; as perguntas - e a curiosidade - afloram com certa facilidade. Ainda bem que é tudo dentro da minha cabeça.

Óbvio que um anel na mão não é garantia de coisa alguma. Um relacionamento vai muito além de usar ou não o adorno. Porém, gosto de pensar que serve como uma lembrança. De vez em quando, parar e olhar para a aliança pode fazer lembrar tudo que foi construído e dos sonhos que ainda não aconteceram. Ou se aquele anel já não faz o menor sentido e a vontade de deixar de usá-lo só cresce. Mais ou menos como o diploma na parede que evoca o juramento feito no dia da formatura ou o passaporte com as folhas cheias ou limpas. É um documento. De vida. 

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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Sobre eles (e o Rodrigo Hilbert)



Homens. Melhor com eles, pior sem eles. Somos todos seres humanos, mas eles são diferentes. De mim, que vim ao mundo mulher. Os homens são mais fortes. A biologia não nega. Menos delicados, talvez. Não sangram todo mês, mas fazem a barba todos os dias. Não sentem um bebê crescer no ventre, mas embalam a criança perto do peito. Em meio à convivência com a testosterona, são intitulados “machos”. Nem venha falar de macho alfa. Brega, brega, brega. Homens são homens. 

Eu gosto dos homens. Pena que o machismo fez tão mal para eles, assim como para nós, as oprimidas. Não estou querendo comparar quem sofre mais. Todas e todos somos atingidos. Ninguém escapa. A posição de opressor obviamente também não é benéfica. Pode até aparentar poder, mas é um poder infundado, ilegítimo e cruel. Independente do papel desempenhado, sobra angústia, insegurança e medo. Onde já se viu um homem não poder chorar nem na frente da própria família? Dos amigos? De qualquer pessoa. Não faz o menor sentido. Chorar é humano, não feminino. 

Homens, não demonizem o Rodrigo Hilbert. Além de ele estar muito bem casado, acredito que as mulheres que já passaram dos 20 e poucos anos não mantenham paixões platônicas com ideais hollywoodianos. Não queremos o Rodrigo, nem os seus dotes culinários, sua habilidade com crochê ou os conhecimentos em construir churrasqueiras. Queremos o que ele representa: o homem que não precisa provar que é "homem" o tempo todo. Isso deve ser tão cansativo... Se os homens pararem para pensar, vão querer deixar de lado tanta pressão. Sejam o que vocês são. Com todas as delícias e as dores de ser. Assim, a sensibilidade que lhes falta, vira à tona. E pronto.

Os homens, eles são lindos. Conheço homens generosos, amáveis e sensíveis. De outros, não posso dizer o mesmo. Esses, perdidos em uma sociedade cada dia mais feminista – sem volta, ainda bem! –, precisam da nossa ajuda para ver o quanto sofrem com todas as mazelas enraizadas pelo patriarcado. Não conseguiremos vencer sozinhas. Eles continuarão pais, filhos, irmãos, esposos. Certa vez, ouvi uma “tese” interessante. Diz que os homens são 60% masculinos e 40% femininos, enquanto que as mulheres são 60% femininas e 40% masculinas. A palavra mágica está aí: equilíbrio. Homens, vale a pena tentar. Eu topo ajudá-los.

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sexta-feira, 21 de julho de 2017

Analógico X Digital


A minha geração está perdida. Ok, não posso falar por todos eles, mas falo por mim. Eu e toda a galera que nasceu entre o final da década de 1980 e o início dos anos 1990 viveu parte da vida de forma analógica e, hoje, vive a vida digital. E ainda tem tanta novidade por vir... O fato é que entramos na escola em meio a brincadeiras como pega-pega e saímos com celular, câmera digital e perfil no Orkut. Entramos na faculdade escrevendo SMS e saímos mandando Whatsapp, postando foto no Instagram, Facebook, Twitter e etc etc etc.

Pelo menos para mim, foi tudo muito rápido. Quando vi, o computador passou de uma aula de informática por semana para horas e horas na frente da tela. O celular que servia quase que exclusivamente para fazer ligações virou um smartphone que possui tantas funções que nem dá tempo de descobrir tudo antes que ele estrague. Mais impactante ainda é se adaptar a tudo isso de um dia para outro, recebendo esse volume gigantesco de informação e estímulo sem parar para pensar. Nós compramos, nós consumimos, nós lemos, nós postamos, nós estamos em todas as redes sociais... E a saúde mental no meio de tudo isso? E a emocional?

A geração dos meus pais foi ensinada para trabalhar para ganhar dinheiro, comprar uma casa, ter um carro e construir uma família. Realização pessoal não combinava com as oito horas diárias. E tudo bem. A geração dos meus filhos - tomara! - trabalhará por amor e também por dinheiro, porque dele não conseguiremos nos livrar. Eu desejo que, daqui a vinte anos, não sejam mais necessários os textos de autoajuda tão disseminados que se resumem em uma frase: "Faça o que você ama". A minha geração está no limbo, entre as duas: de um lado, foi ensinada e sente a pressão da família pela tradição e, por outro, sente o ímpeto de seguir o coração e apostar naquilo que faz o coração vibrar. Se ficarmos ricos, ótimo. Se não, tudo bem. Mas quem disse que é fácil descer do muro e escolher um lado em definitivo?

Em meio a tudo isso, elas, as nossas já indispensáveis redes sociais. Nós estamos longe de saber a influência delas nas nossas emoções. Confesso possuir um pouco de medo de saber.. É uma super exposição misturada com inveja-de-amigos-e-inimigos misturada com a obrigação de seja feliz-bonito-rico-apaixonado o tempo inteiro. E, como se não bastasse, no auge dos nossos 20 e poucos e tantos anos, vivemos uma das piores crises econômica e política da história do Brasil. Temos que ter opinião. Temos que lutar contra tudo isso. Temos que nos impor. Não é fácil. Para mim, pelo menos, não é fácil. Não está sendo fácil. Às vezes, tudo parece apenas uma grande confusão. E eu quero um pouco de calma. 

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sexta-feira, 14 de julho de 2017

Gente quente


Em dias de inverno, gente quente faz a diferença. Em dias de verão, também. No outono e na primavera, a mesma coisa. Gente quente faz bem em qualquer estação, em qualquer hora, em qualquer lugar. Não é exclusividade de homem, mulher, branco, preto, jovem ou velho. É coisa de alma. Essa mesmo, que não sabemos explicar direito, mas que todo mundo entende o que é. Vez por outra, falamos que "fulano tem uma energia boa". É por aí.

Gente quente vem em forma de um abraço mais demorado, um sorriso verdadeiro, uma companhia naquela hora em que só se quer desabafar, uma fala sem julgamentos ou um olhar amoroso. Gente quente não precisa de roupa de marca muito menos de carro do ano. Precisa mesmo é de humanidade. E só! E tanto! Essa particularidade intrínseca a seres humanos. Não é sobre agilidade, é sobre sensibilidade. Não é sobre a capacidade de armazenamento, mas a capacidade de transbordamento.

Estamos cada vez mais máquinas. E nascemos humanos. Há tanto frio, desde as notícias que estampam manchetes até o olhar fixo na tela ao andar pela calçada, enquanto a vida passa. Às vezes, eu sinto tanto frio... E colocar mais roupa de lã não adianta. O frio vem da carência, da falta de algo. Pode ser apenas o sol ou o afeto de uma vida toda. Estamos carentes, desamparados, perdidos em meio a tanta novidade. Gente quente é quem diz a famosa frase "Vai ficar tudo bem." E emenda com o "Estou contigo." Poucas palavras que são capazes de deixar o coração aquecido.

Vale a pena ser quente. Mesmo que todo o resto esteja abaixo de zero. Se o que temos de mais valioso são os laços que criamos, é sempre hora de aumentar a temperatura nos relacionamentos, conosco mesmo e com os outros. Tem mais a ver com empatia do que com sexo. Uma alma calorosa vive melhor e emana energia. Passa pela vida leve e, ao mesmo tempo, forte. Tem quem seja puro aconchego. É disso que eu gosto. Gente quente. 

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sexta-feira, 7 de julho de 2017

Da arte de observar


Posso estar na praça de alimentação do shopping, na mesa do restaurante, no banco do ônibus, na fila do supermercado, na esquina esperando para atravessar a rua, na janela do meu quarto, em qualquer lugar que tenha o mínimo de pessoas. Ali, eu vou ser apenas uma observadora. Dos olhares, gestos, palavras, suspiros, passos, tropeços e sorrisos dos outros. Vez que outra o objeto da observação me olha de soslaio, como a perguntar quem é a enxerida que quer se meter na conversa - na vida! - alheia. Peço desculpas de antemão, sou apenas uma observadora.

Não lembro quando comecei a gostar dessa prática, nem tão incomum nem tão comum, de ficar atenta ao que os outros estão fazendo. Talvez tenha sido desde sempre, da criança que "não dava trabalho". Por ventura possa ser uma das facetas da minha timidez. Quiçá tenha aflorado com a faculdade de Jornalismo. Talvez tudo isso. A estranhos, pode parecer que sou uma avoada, com os pensamentos na lua. Na verdade, eu estou imaginando como será a vida daquele ser humano. Qual é a idade, a profissão, se já casou, se já descasou, se tem filhos, quantas vezes teve o coração partido, se já chorou naquela semana... Passo a tentar deduzir o que se passa com aquela alma. Perscrutar as histórias de quem nunca vi na vida.

Ambientes diferentes soam mais atrativos ao meu ser. Como se portam os convidados vips no backstage de uma corrida de Fórmula 1? Como olham uns para os outros? Como se comportam os participantes de um velório? Em uma festa de classe baixa, como os homens chegam nas mulheres? E em uma balada da classe alta? Na fila de embarque no aeroporto, quem tem mais pressa e quem está relaxado? A moça que trabalha no caixa do supermercado está de batom vermelho, o homem que escolhe maçã tem uma aliança, a mulher que dirige parece estar aflita e rói as unhas...

Tal exercício, de observar desconhecidos, aguça a minha sensibilidade. Somos seres sensíveis, ora. Aflora a minha empatia. Deveríamos ser seres cada vez mais empáticos, não? Me faz bem. Por quê? Porque me faz ver que eu não sou a única a ter o rosto relaxado ou tenso, os olhos sedutores ou marejados, um sorriso largo ou envergonhado, as mãos calejadas ou macias, a voz firme ou calma. Um semblante de esperança ou de tédio. Devo achar tão curioso observar outras pessoas pelo simples fato de que, nelas, observo a mim mesma.


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sexta-feira, 30 de junho de 2017

Por que tão insegura, menina?


Muito provavelmente, não é a primeira vez que falo sobre isso aqui. Os dias passam e eu sigo a nutrir um medo de críticas e, portanto, uma insegurança que passa do limite do aceitável. Tudo isso combina com o clássico "sofrer por antecipação". Pode soar ridículo e um tanto quanto absurdo, mas demoro a ler e-mails, mensagens no Facebook e no Whatsapp por conta disso. Sinto um medo de ler algo horrível sobre mim. Parece que, a qualquer momento, alguém virá dizer que tudo o que eu faço é ruim. Ou nem tão bom assim.

Dia desses, estava assistindo ao Canal GNT e, durante um intervalo, passou o depoimento de algumas mulheres "famosas" sobre autoconfiança. Eis que ouço a youtuber Jout Jout confessar: "Quando clico em publicar o vídeo, eu fecho a página e saio correndo." Talvez não foi exatamente com essas palavras, mas foi isso que ela quis dizer. Ufa! Eu não sou a única. Identifiquei-me com e, até então, nunca havia ouvido alguém falar com todas as letras o que eu sempre tive vergonha de admitir. É uma mistura de querer mostrar e não querer mostrar o que achamos que fazemos bem. 

Por quê? Por que tanta insegurança? Não sei o porquê de eu ainda relutar tanto em saber a reação das pessoas a respeito do que faço, escrevo, crio. Acho que eu espero sempre o pior. Mesmo sabendo que ele não virá, eu espero. Na minha vida profissional, houve momentos em que a primeira coisa que vinha à minha cabeça, a cada vez que uma tarefa era dada a mim, era a de que eu não iria conseguir fazer aquilo. Por mais que eu soubesse que, sim, eu era mais do que capaz, esse pensamento era inevitável. Normalmente, meninos não sentem tanto essa falta de autoconfiança. Não vou entrar na discussão disso ser fruto da sociedade machista em que vivemos, mas é verdade.

O maior problema é a possibilidade do medo do que os outros vão dizer atrapalhar as minhas próprias criações. Não é segredo que o medo impede que a criatividade flua, livre, leve e solta. Talvez eu me policiei demais. Talvez eu me explique demais. Talvez eu fique longe demais de mim mesma. Não sei... Não é fácil. Nunca é fácil. Preciso repetir para mim que a minha própria avaliação basta. Se eu gostei, amei, aprovei, está ótimo. Minha parte está feita. Quem sabe, um dia eu chegue lá. Quando esse momento chegar, talvez eu não precise mais escrever textos como esse.

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