sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Sonho meu


Muito se fala sobre eles, pouco se sabe de verdade. Eu, particularmente, nunca fui de dar muita bola. Só se eram episódios extraordinários. Muito ruins ou muito bons. De uns meses para cá, tirei o atraso e desenvolvi um pequeno vício sobre eles, os sonhos. Os meus sonhos. Criei o hábito de escrever o que havia sonhado, logo após ter aberto os olhos e ainda ter as imagens e falas vivas na minha mente. Primeiro digito na tela do celular, de qualquer jeito, com direito a erros gramaticais e de concordância. Depois, passo a limpo em um caderninho. Hoje, são dezenas de sonhos anotados.

Com o tempo, começam a aparecer algumas imagens que se repetem. Ou, pelo menos, que parecem que se repetem. Sonhos costumam ser um pouco confusos... Há alguns meses, sonhava constantemente que andava de ônibus. De uns tempos para cá, o veículo mudou para um carro. Na direção? Sempre outro alguém. Uma vez, eu estava dirigindo. E quase ocorreu um acidente. Festas, grandes multidões, a turma do ensino médio, dia da formatura, sensação de estar perdida, muita chuva e algumas tempestades... E calçados: bonitos, feios, em falta, femininos, masculinos. Todos são elementos recorrentes nos meus sonhos.

O Google costuma ser o meu guia para desvendar o significado dos sonhos. Como quando tive um sonho bastante nítido em que aparecia uma aranha. Ela foi o destaque. Li que uma aranha pode ter a ver com situações relacionadas à mãe da gente. Aí lembrei que no dia anterior tinha tido uma briga horrível com a minha. Podia ser coincidência, mas podia não ser. Nosso subconsciente sabe o que quer passar com os nossos sonhos. Nós que não sabemos interpretar o que ele quer nos dizer. Dá medo... Eu tenho medo. De quem? De mim mesma? Não pode ser. Preciso enfrentar.

Por trás de tudo isso, está a missão que decidi encarar desde o começo do ano: desenvolver a minha intuição. Ouvir o meu coração. Entrar em contato comigo mesma. Há vários jeitos de nomear o processo, mas no fundo eu quero apenas ser quem sou. Descobrir quem sou, para ser bem exata. Por que não aproveitar os sonhos? Eles devem estar aí para alguma coisa. Ainda estou no começo das descobertas e tudo está mais enevoado do que claro. Tudo bem, eu não tenho pressa. Autoconhecimento não combina com o tique-taque do relógio mesmo. Para agora, que eu deite, durma e sonhe.

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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Debaixo do chuveiro


Tomar banho tem todo um ritual. Ligar o chuveiro - com toda a habilidade para não se molhar com o primeiro jato, sempre de água fria. Tirar a roupa, sempre na mesma ordem. Meias, calça, camiseta, calcinha e sutiã. Conferir se a água está quente e entrar. Sentir o corpo e os cabelos banharem-se pela água quente... Entro quase em um universo paralelo. Passa shampoo, passa condicionador, passa sabonete. Eu cheguei a passar condicionar mesmo? A hora do banho é a parte da minha rotina que nunca cansa.

Sempre me senti à vontade nos banheiros das casas onde morei. Talvez porque apenas nos últimos três anos tive um quarto só para mim. Antes, sempre dividi o dormitório com uma das minhas irmãs. Mas o quarto não tem chave? Tem, mas a ação de trancar a porta suscita a inevitável questão: "Por que trancou?". Não vale a pena. No banheiro, é diferente. A regra é trancar a porta. Ufa. Estou livre. Dentro do menor cômodo da casa. Eu e meus momentos de paz. Ou de dor, quando as lágrimas se misturam com as gotas que percorrem meu corpo.

Tomar banho funciona praticamente como um momento catártico para mim. Por várias vezes, tive insights e ideias enquanto deixo meu corpo relaxar e minha mente viajar. Sem falar nas conversas importantes, que nunca aconteceram na vida real. Relembro diálogos que aconteceram e me culpo por não ter dito o que eu queria dizer. Ou sorrio por ter falado exatamente aquilo que eu queria. Imagino DRs, papos-cabeça, entrevistas de emprego... Falo comigo mesma e com o mundo. O box é meu ouvinte.

Uma pena a água ser um recurso esgotável. Economizo. Mas minha vontade é ficar, ficar e ficar no banho... Lá, no meu reduto anti-estresse. A água passa e leva o pó de um dia a dia muitas vezes difícil. Não está sendo fácil para ninguém. Uma vez, em algum dia e em algum lugar, li que o momento do banho é um dos poucos que ainda entramos em contato com a natureza. Não pisamos na terra. Não sentimos o vento. Fugimos do sol. Resta-nos a hora do banho para nos reconectarmos. Somos seres vivos, compostos de cerca de 65% de água. No corpo e na alma.

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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Essas tais coincidências


"Coincidência, substantivo feminino, 1. Ato de coincidir. 2. [...] 3. Simultaneidade de diversos acontecimentos." Esta é a definição disponível no Dicionário Priberam, na versão online. Achei-a objetiva demais. Afinal, se tem algo que mexe com a minha subjetividade, são as coincidências da vida. Como uma música que você não ouvia há anos - por lembrar momentos que ainda doem (ou que sempre vão doer) - e toca no rádio quando você estava em um dia à flor da pele. Tem quem não dê a mínima para eventos como esse. Eu dou o máximo. Talvez de forma que beira o excesso.

Em minha defesa, alego que o dia a dia me força a acreditar nessas tais coincidências. Dou exemplos. Outro dia, passei uma tarde feliz acompanhada. Quando voltei para casa, encontrei amigos de uns vizinhos na entrada do prédio. Nunca havia os visto. No elevador, a moça perguntou para a vizinha se fulano estava em casa. Fulano tinha o mesmo nome de quem eu havia dado tchau há uns 15 minutos... Já numa tarde dessas, recém havia saído de casa e estava caminhando bem bela quando uma mulher cumprimentou um homem do outro lado da rua. O nome do sicrano? Aquele que não deve ser mencionado, também conhecido como ex. Em uma cidade com um milhão de habitantes, um ser com aquele nome vem passar logo perto de mim...

Esses são exemplos "tranquilos". Há alguns acasos que mudaram a minha vida, literalmente. Em uma mesa de bar, depois de umas cervejas, eu conto essas histórias para quem quiser ouvir. Só tem uma condição: não pode me olhar com cara de desdém. Vou me sentir ofendida. Respeito quem não acredita em "destino" ou "lugar certo na hora certa" ou no famoso "estava escrito". Cada um crê e não crê no que quiser. Eu escolho o equilíbrio: 50% é resultado do destino e 50% é resultados das escolhas. Fico em cima do muro, sim.

Às vezes, penso que essas coincidências acontecem somente porque eu valorizo-as. Gosto de pensar que a vida dá "sinais", que tudo está conectado e que há algo além da nossa parca materialidade. Tem mais um motivo. Divago que possa ser o jeito que encontrei de aliviar um pouco o peso sobre as minhas costas. De deixar que o destino se encarregue de me aproximar de quem eu devo me aproximar e de me afastar de quem eu devo me afastar. De não me crucificar por um erro, porque ali na frente a vida dará um jeito. Eu sei que é preciso fazer escolhas o tempo todo. Mas, de vez em quando, eu gosto de fechar os olhos e passar o comando a alguém. Às nuvens, à lua, às estrelas...   

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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Mais parques, por favor


Nem parece que se está em uma cidade grande. Ou parece, pelas buzinas impacientes que insistem em poluir o ar e pela sirene estridente da ambulância que tem pressa para passar. Caminho mais para relaxar e menos para me exercitar. Outros correm como se estivessem em uma competição, alguns andam de bicicleta, um que outro lê um livro num dos bancos, uns embalam os filhos nos balanços e ainda há aqueles que passeiam enquanto levam os cachorros passear. Tem também os que discutem a relação. Namoram.

Um parque, no meio de uma "selva de pedra", é muito mais do que árvores dispostas ao longo de pequenas estradinhas. É um refúgio mental. Como se, ao adentrar aquele espaço, o relógio passasse a girar mais devagar, a crise não estivesse tão grave, o emprego não fosse tão chato e aquele problema insuperável não passasse de mais um de tantos que a vida nos reserva. Não vamos para o parque tonificar o corpo, porque há inúmeras academias a poucos passos dali. Vamos para o parque para tonificar a mente e, assim, melhorar o corpo.

No parque, não tem dress code. Não precisa estar de Nike, ter o tênis de corrida mais caro ou o legging que saiu na última coleção. Mas se quiser ir, tudo bem. Chinelo? Ok. Paletó e gravata? Ok. O parque aceita - e pleiteia - diversidade. Abraça os vários abraços: homem e mulher, mulher e mulher, homem e homem. O jovem descansa enquanto o vovô corre atrás do neto. As amigas conversam sem parar enquanto a jovem fecha os olhos para entrar no seu silêncio. O parque é democrático. 

Não é por acaso que as cidades que oferecem boa qualidade de vida possuem grande número de áreas verdes. Espaços que são venerados, como devem ser. É bom estar em contato com a natureza. Faz bem. Mesmo que o asfalto esteja ali pertinho, junto dos prédios espelhados. Gosto de pensar que a função mais importante de um parque em uma metrópole talvez seja a de humanizar. Tornar a cidade mais humana. Mais do que isso, tornar os humanos mais humanos. Vez por outra esquecemos que somos de carne, osso e alma.

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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Na Barriga da Minha Irmã


Quando minha irmã contou que estava grávida, no último Dia das Mães, automaticamente um sorriso se formou no meu rosto - e no de todas as outras pessoas que estavam naquele salão. Não são todos os momentos que ficam eternizados na nossa memória. Esse, no entanto, é um deles. Alguns segundos antes da notícia, quando minha irmã havia começado a falar, olhei para as duas rosas que estavam na mão dela e do meu cunhado, olhei para o rosto dos dois, para o ambiente e senti que eles iam anunciar aquela novidade. "A gente queria contar que a família vai aumentar", disse ela.

Passado o deslumbramento inicial (que na verdade só aumenta com o passar das semanas), eu meio que entrei em choque. Como se eu arregalasse os olhos toda vez que eu pensava no assunto. Será mesmo que a minha irmã está grávida? Será mesmo que a barriga da minha irmã vai crescer? E vai ter um nenê dentro? Vai sair um ser humano da barriga da minha irmã!!! Ai meu Deus!!! Podem parecer perguntas infantis e ingênuas, mas uma gravidez é o que de mais perto temos da magia. É muito louco pensar que sairá uma nova pessoinha da barriga da minha irmã. Muito louco.

Eu nunca havia parado para refletir sobre como seria ter um sobrinho até aquele domingo de tarde. Sabia que um dia eu me tornaria tia, afinal, com três irmãs seria muita sacanagem eu não poder treinar com pelo menos um nenê antes de gerar o meu próprio. Confesso que via postagens nas redes sociais de amigas com suas sobrinhas e sobrinhos e julgava aquele amor todo como exagerado. Pensava: "Como podem amar tanto se nem são filhos delas?" Que besteira... Hoje eu acredito naquele amor todo. E mais do que isso: sei que vou fazer igual. Talvez não online, mas off-line.

Ano passado, quatro colegas e eu produzimos um documentário sobre jovens mães em uma das últimas disciplinas do curso. Em uma das aulas, não lembro sobre o que exatamente estávamos conversando, a prof. Marliva disse que ela acreditava que enquanto as mães continuassem a gerar filhos, enquanto Deus ainda proporcionasse isso a elas, haveria esperança. O nosso mundo ainda teria jeito. Não se trata do meu sobrinho se tornar um Nobel da Paz nem um iluminado que acabará com a fome. É sobre amor. Amor. Todo o amor que emana da barriga da minha irmã.

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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A Turma do Ensino Médio


Marcaram para uma sexta-feira à noite a famosa "janta da turma." Ao primeiro momento, quando fui adicionada no grupo do Whatsapp intitulado "3º C", eu imediatamente o silenciei. A ideia de se reunir novamente com o pessoal do ensino médio não me agradou. Não que os meus três últimos anos no colégio tenham sido ruins. Foram legais. Reencontrar o pessoal novamente, no entanto, era outra história... Não fazia tanto tempo assim que nós tínhamos nos visto. Foi na Copa do Mundo de 2014, em um jogo do Brasil quando ainda não havia acontecido o fatídico 7 x 1. Três anos só. 

Porém... Como sou uma pessoa até bastante influenciável, após um pedido um pouco mais insistente da minha amiga que também foi minha colega, topei ir para o churrasco. Seja o que Deus quiser, pensei. Chegou o dia e, de alguma forma, eu estava nervosa. Sempre tem uma tensão no ar nesses encontros, não? Espero que sim, porque senão vou me achar a antissocial problemática. Estaria lá a colega que eu invejava a extroversão, o guri por quem eu me apaixonei platonicamente, a outra colega que eu definitivamente não ia com a cara... Enfim, os personagens do ensino médio. Tenso.

Ainda bem que eu fui. No dia seguinte, uma das colegas escreveu no grupo que ela havia adorado "reconhecer" os companheiros das aulas impossíveis de Física. Essa talvez seja a palavra certa para descrever a sensação que eu tive, assim como ela. Sobre a colega que apresentava os trabalhos com uma tranquilidade absurda, percebi que o que eu queria era ter aquele amor próprio. Invejava a liberdade dela em ser o que era. Já a guria que o "santo não batia", descobri que também está na estatística dos desempregados. E que não é fácil, para ninguém. A primeira a casar e ser mãe continua a querer sair, viver, aproveitar a vida. E que o piadista do grupo também enfrenta dias tristes.

Mais do que isso, foi uma oportunidade de eu mesma ver como me transformei depois de oito anos e meio daquela noite da formatura. Reavaliar a pessoa, a mulher e a profissional que me tornei. Quem sou hoje, diferente daquela que fui. Gostei do resultado. Deu até um orgulho interno. Ainda há tanto para errar, aprender e evoluir, mas o que fiz até agora me acalenta. Sinto que estou na direção certa. Foi também uma oportunidade de perceber como, na essência, ainda somos parecidos. Somos jovens, um tanto perdidos. Estamos todos juntos, no mesmo barco. Mesmo que um para cada lado.

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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Na mão esquerda


Aconteceu durante um almoço em um movimentado shopping de Porto Alegre. Na mesa à frente da minha, uma senhora almoçava também. Era uma senhorinha mesmo, com as suas muitas décadas de vida. Rugas, reforçados óculos de lente, uma leve corcunda. Quem a acompanhava era a filha, provavelmente. Na mão que segurava o talher, notei que usava uma aliança. Logo pensei na possibilidade do marido já ter morrido e ela continuar a usar aquele anel dourado no dedo anular da mão esquerda. Desejei que sim. Que amor. Quanto amor.

Em seguida, lembrei-me do meu avô. Resolvi perguntar para a minha mãe, que estava comigo, se meu avô continua a usar a aliança, passados mais de cinco anos desde que a minha avó faleceu. Ela disse que não. Fiquei triste. Ela também. De alguma forma, seria uma homenagem à minha avó. E aos mais de cinquenta anos de casados que comemoraram com festa de Bodas de Ouro. Poucos símbolos representam tanto e são tão fetichizados como uma aliança de casamento. Naquelas gramas de ouro, está o compromisso de respeito, no mínimo, à pessoa com quem se divide a vida. Definitivamente, não é qualquer adereço.

De uns tempos para cá, venho reparando nas mãos dos homens e das mulheres. Mais deles do que delas. Não importa onde eu esteja. Virou quase uma mania. Esse símbolo do matrimônio (não me arrisco a classificá-lo do amor) atrai o meu olhar. Às vezes, quando a pessoa me desperta um pouco mais de atenção, começo a imaginar há quanto tempo casou, como deve ser o parceiro ou parceira, se é realmente feliz, quantas crises já superaram, se ainda existe amor... Sou jornalista de formação; as perguntas - e a curiosidade - afloram com certa facilidade. Ainda bem que é tudo dentro da minha cabeça.

Óbvio que um anel na mão não é garantia de coisa alguma. Um relacionamento vai muito além de usar ou não o adorno. Porém, gosto de pensar que serve como uma lembrança. De vez em quando, parar e olhar para a aliança pode fazer lembrar tudo que foi construído e dos sonhos que ainda não aconteceram. Ou se aquele anel já não faz o menor sentido e a vontade de deixar de usá-lo só cresce. Mais ou menos como o diploma na parede que evoca o juramento feito no dia da formatura ou o passaporte com as folhas cheias ou limpas. É um documento. De vida. 

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