sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Uma sucessão de reencontros



Quase dois meses após a mudança para Porto Alegre, percebi que, mais do que nunca, minha vida virou uma série de reencontros. É claro que não falo sobre os reencontros costumeiros, de todos os dias reencontrar os parceiros de trabalho, os colegas da faculdade, o porteiro do prédio. Esses são cotidianos. Não são frutos da saudade, mas da rotina. Ao contrário daqueles outros que nascem justamente do desejo de sair da rotina. Ver quem morava perto e passou a morar longe. Encurtar a distância que antes não existia. Aprender a lidar com esse fato novo.

Todo mundo sabe que o tempo é relativo. Cada um sabe quanto vale o tique-taque do relógio. Em outras palavras, o quanto vale a vida. Cada um aproveita do seu jeito. E tudo bem. Inevitavelmente, a distância faz com que o tempo tome novas proporções. Uma mudança de cidade é tanto física quanto emocional. E temporal também, por que não? Os reencontros passam a ser disputados. Não é mais qualquer almoço, qualquer café, qualquer janta. O final de semana que antes não tinha planos passou a ser pequeno. O domingo tedioso se tornou atarefado. 

Esses reencontros, porém, não acontecem por obra do destino. Antes de tudo, é preciso querer. Desejar se reencontrar com quem ficou por lá. Sejam parentes, amigos, namorados. Amizade é algo não se constrói de um dia para outro. Até pode surgir de uma hora pra outra, mas só se mantém com dedicação e interesse. Relacionamentos precisam ser nutridos. Com os quilômetros entre nós e eles, o encontro precisa ser ainda mais desejado. Sem a vontade de querer estar perto, não há WhatsApp que ajude na aproximação. 

Entre ir e voltar, eu me deparo com o tempo que talvez desperdicei quando estava lá. Os encontros precisaram virar reencontros para ver algumas coisas que estavam embaçadas. A distância também tem disso: às vezes, apenas alguns passos para trás e já enxergamos de uma perspectiva diferente. Mais ampla. Por vezes, o que se vê não é exatamente fácil. Ninguém disse que seria. Mas se a vida é feita de paradoxos, repito mais um: a distância aproxima. A distância faz reencontrar. Principalmente, a gente com a gente mesmo. 

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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Vem cá, me dá um abraço


Outro dia, eu conversava com uma das minhas irmãs e em certo momento ela disse que viu não sei onde não sei quem falar que a média necessária de abraços que uma pessoa deve dar e receber por dia é de 12 abraços. Doze. Uma dúzia de abraços em um período de 24 horas para que o corpo libere aqueles hormônios terminados em "ina". Na hora, respondi que, se for isso mesmo, nessa vida não tem mais como transformar o meu déficit em superávit. Já estou devendo muito, há anos. Se eu dou e recebo doze abraços em um mês já é muito. Mas muito mesmo.

Não sou de abraçar. Na verdade, não sou de demonstrar carinho desses jeitos. Nem minhas irmãs, nem meus pais. Herança de família... Precisei ouvir com todas as letras para me dar conta que eu não demonstrava o afeto por meio de contato físico como beijos, abraços e cafunés. Na hora, fiquei confusa. Eu nem tinha reparado. Se na minha casa era normal, na dos outros também devia ser. Pode parecer estranho para outra pessoa compreender que não se trata de frieza ou desamor, mas algo como uma "trava" que me impede de ter esse contato mais próximo.

Que pena... Quantos abraços eu podia ter dado e recebido até hoje e deixei passar? Meu nível de cortisol no sangue estaria mais baixo, minhas costas mais leves, meu sistema imunológico mais forte, meu coração mais quentinho e minhas relações ainda melhores. Aliás, por que abraçamos tão pouco? Duvido que só eu tenha essa sensação. Temos vergonha de abraçar? Temos receio de demonstrar que somos frágeis e que, sim, precisamos de afeto muito mais do que imaginamos? E, quando abraçamos, temos pressa. Por que tanta rapidez em demonstrar carinho?

Como tudo na vida, depois da reflexão deve vir a ação. Estou disposta a, pelo menos, tentar diminuir a minha dívida de abraços. Sei que ainda tenho um longo caminho pela frente, mas o importante é começar. A abraçar. Nesta semana, eu dei um abraço em uma amiga que, talvez, em outra época não daria. Eu estava presente naquele momento. Ouvi as suas palavras, olhei nos seus olhos e senti que deveria abraçar. Joguei para longe o pensamento que começava a se formar dizendo "Nãooo faça..." E abracei. Foi tão bom. Estejamos mais presentes no presente. E de braços abertos.

PS: Se você mora nas cidades de Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte, São Paulo ou Rio de Janeiro e quer ganhar um abraço, é só pedir um no site da Perestroika. Eu já pedi o meu, mas ainda não fui retirá-lo. Prometo que até o fim do ano eu vou!

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**Essa é a postagem de número 200 do blog. :)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Da janela


Da janela eu vejo tanto. É gente, é cachorro, é carro, é pássaro, é de tudo e mais um pouco. Gordo, magro, baixo, alto, feio, bonito. Gente que vai e gente que vem. Passa caminhão, moto, ônibus, bicicleta, caranga. Todos juntos, um de cada vez. Gente que vai e também vem. Uns têm pressa e logo arrancam. Outros vão com calma, pisam no freio. Tem loja, tem prédio, tem casa. Uns entram enquanto outros saem.

Da janela eu vejo tanto. Contemplo o sol que brilha lá fora e aqui dentro aquece o corpo para ser feliz. Enxergo a lua, que lá de longe ilumina a dor escura. Avisto a chuva que molha o chão e leva embora a aridez da solidão. Assisto relâmpagos que energizam a pacata vida. Sinto o vento que açoita as árvores, derruba as folhas e seca o remorso que insiste em existir. Observo a neblina que embaça a vista e umedece o beijo dos amantes. Vejo o dia raiar, vejo a noite cair.

Da janela eu vejo tanto. Mãe que abraça a filha, pai que abraça o filho, irmão que abraça a irmã, amigo que abraça a amiga, marido que abraça a esposa. E vice-versa. Briga de mãe com filha, pai com filho, irmão com irmã, amigo com amiga, namorado e namorada. E vice-versa. Criança grande e criança pequena. Velho jovem e jovem velho. Uns se dão as mãos, outros seguem solitários. Há aqueles que inspiram e os que exalam.

Da janela eu vejo tanto. Tem dia de brabeza, com carro que bate em carro, carro que esbarra em gente, gente que grita com gente, criança que chora alto, cachorro que late forte, ventania que uiva aos deuses, buzina que estremece o sossego, alarme que irrita o silêncio, passo apressado que tropeça, lágrima triste que escorre pelo rosto. É, tem dia agitado que só vendo. 

Da janela eu vejo tanto. Há também dia de calmaria, com carro que freia sem solavanco, cachorro que passeia sem pressa, gente que passa devagarinho, assovio que se ouve de longe, riso de criança contente, abraço apertado de parente distante, selinho apaixonado estalado nos lábios, sorriso que atrai sorriso, mão dada com mão, saudação de bom dia, boa tarde e boa noite.

Não precisa de muitas voltas no relógio. Cinco minutos e o movimento já me preenche. Quiçá pouco mais ou pouco menos. Segundos a mais ou segundos a menos. Depende o dia, a hora, o humor. Tempo é relativo, afinal. Tudo é relativo, de certa forma. De uma coisa, porém, não resta dúvida: da janela eu vejo a vida.

Da janela eu vejo tanto. 

E me fascina.

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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

And the Emmy goes to...


Devo ser uma das pouquíssimas pessoas da minha idade que não assina Netflix. Está nos meus planos, mas ainda não me rendi à gigante do streaming. Mais por não ter uma TV só para mim do que pelo preço da assinatura. E devo confidenciar que não sou a maior aficionada por séries... Reluto um pouco em assistir o-que-todo-mundo-está-assistindo. Se de cada cinco cenas, quatro e meia conterem violência, estou fora. Não faz meu tipo. E se o enredo foca em criaturas horrendas, também estou fora. Gosto de vida real. Na ficção. Tipo Girlboss e Masters of Sex. Ou House e Friends.

Na minha incursão pelo Youtube nos últimos tempos, deparei-me com o canal da MariMoon e o vídeo no qual ela fala sobre Big Little Lies. É essa que vou assistir, pensei. Já comentei aqui que sou um tanto quanto influenciável, não? Ainda bem, nesse caso. Adianto a sinopse para quem nunca ouviu falar: a série conta a história de três mães que se aproximam quando seus filhos pequenos passam a estudar juntos. Elas levam vidas aparentemente perfeitas... Aparentemente, porque tudo começa com a cena de um assassinato. Alguém morreu e alguém matou. A cada episódio, sete no total, vamos nos aproximando de saber quem fez o quê. Mas não se engane: Big Little Lies vai muito além.

Gosto de assistir séries "reais" porque me identifico com elas. Não é óbvio? Preciso me identificar para me deixar cativar. E Big Little Lies tem muito disso. Em cada personagem, em cada uma delas, eu me vi. E vi minhas amigas, minhas irmãs, minha mãe. Não vivo em uma mansão de frente para o mar, mas o medo de fazer a escolha errada é o mesmo que a personagem sente. Ainda não tenho filhos, mas sei que quando os tiver, ainda serei mulher, além de mãe. Não sofri abusos físicos, mas todas nós sofremos diferentes abusos e precisamos aprender a lidar com eles. Não é fácil. Se não estamos sozinhas, porém, o peso nas costas diminui.

O final é surpreendente. Eu fiquei olhando para a tela com uma cara de OHHH MYYY GOOOD. Chocante e aconchegante. As cenas finais são lindas. Emocionalmente, lindas. Não sei se a pegada feminista da série é (também) uma jogada de marketing em tempos de árdua luta contra o sexismo, mas sempre é tempo de falar sobre nós, mulheres. Sobre nossos sonhos, nossos medos, nossas fragilidades, nossos traumas, nossos amores, nossos desejos. Sempre é hora e lugar de fazer ouvir as nossas vozes. E de nos darmos as mãos, mulheres. Até (e ainda mais!) em cima de um palco, para recebermos estatuetas. Porque o Emmy, meus amigos, é nosso!

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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Sonho meu


Muito se fala sobre eles, pouco se sabe de verdade. Eu, particularmente, nunca fui de dar muita bola. Só se eram episódios extraordinários. Muito ruins ou muito bons. De uns meses para cá, tirei o atraso e desenvolvi um pequeno vício sobre eles, os sonhos. Os meus sonhos. Criei o hábito de escrever o que havia sonhado, logo após ter aberto os olhos e ainda ter as imagens e falas vivas na minha mente. Primeiro digito na tela do celular, de qualquer jeito, com direito a erros gramaticais e de concordância. Depois, passo a limpo em um caderninho. Hoje, são dezenas de sonhos anotados.

Com o tempo, começam a aparecer algumas imagens que se repetem. Ou, pelo menos, que parecem que se repetem. Sonhos costumam ser um pouco confusos... Há alguns meses, sonhava constantemente que andava de ônibus. De uns tempos para cá, o veículo mudou para um carro. Na direção? Sempre outro alguém. Uma vez, eu estava dirigindo. E quase ocorreu um acidente. Festas, grandes multidões, a turma do ensino médio, dia da formatura, sensação de estar perdida, muita chuva e algumas tempestades... E calçados: bonitos, feios, em falta, femininos, masculinos. Todos são elementos recorrentes nos meus sonhos.

O Google costuma ser o meu guia para desvendar o significado dos sonhos. Como quando tive um sonho bastante nítido em que aparecia uma aranha. Ela foi o destaque. Li que uma aranha pode ter a ver com situações relacionadas à mãe da gente. Aí lembrei que no dia anterior tinha tido uma briga horrível com a minha. Podia ser coincidência, mas podia não ser. Nosso subconsciente sabe o que quer passar com os nossos sonhos. Nós que não sabemos interpretar o que ele quer nos dizer. Dá medo... Eu tenho medo. De quem? De mim mesma? Não pode ser. Preciso enfrentar.

Por trás de tudo isso, está a missão que decidi encarar desde o começo do ano: desenvolver a minha intuição. Ouvir o meu coração. Entrar em contato comigo mesma. Há vários jeitos de nomear o processo, mas no fundo eu quero apenas ser quem sou. Descobrir quem sou, para ser bem exata. Por que não aproveitar os sonhos? Eles devem estar aí para alguma coisa. Ainda estou no começo das descobertas e tudo está mais enevoado do que claro. Tudo bem, eu não tenho pressa. Autoconhecimento não combina com o tique-taque do relógio mesmo. Para agora, que eu deite, durma e sonhe.

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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Debaixo do chuveiro


Tomar banho tem todo um ritual. Ligar o chuveiro - com toda a habilidade para não se molhar com o primeiro jato, sempre de água fria. Tirar a roupa, sempre na mesma ordem. Meias, calça, camiseta, calcinha e sutiã. Conferir se a água está quente e entrar. Sentir o corpo e os cabelos banharem-se pela água quente... Entro quase em um universo paralelo. Passa shampoo, passa condicionador, passa sabonete. Eu cheguei a passar condicionar mesmo? A hora do banho é a parte da minha rotina que nunca cansa.

Sempre me senti à vontade nos banheiros das casas onde morei. Talvez porque apenas nos últimos três anos tive um quarto só para mim. Antes, sempre dividi o dormitório com uma das minhas irmãs. Mas o quarto não tem chave? Tem, mas a ação de trancar a porta suscita a inevitável questão: "Por que trancou?". Não vale a pena. No banheiro, é diferente. A regra é trancar a porta. Ufa. Estou livre. Dentro do menor cômodo da casa. Eu e meus momentos de paz. Ou de dor, quando as lágrimas se misturam com as gotas que percorrem meu corpo.

Tomar banho funciona praticamente como um momento catártico para mim. Por várias vezes, tive insights e ideias enquanto deixo meu corpo relaxar e minha mente viajar. Sem falar nas conversas importantes, que nunca aconteceram na vida real. Relembro diálogos que aconteceram e me culpo por não ter dito o que eu queria dizer. Ou sorrio por ter falado exatamente aquilo que eu queria. Imagino DRs, papos-cabeça, entrevistas de emprego... Falo comigo mesma e com o mundo. O box é meu ouvinte.

Uma pena a água ser um recurso esgotável. Economizo. Mas minha vontade é ficar, ficar e ficar no banho... Lá, no meu reduto anti-estresse. A água passa e leva o pó de um dia a dia muitas vezes difícil. Não está sendo fácil para ninguém. Uma vez, em algum dia e em algum lugar, li que o momento do banho é um dos poucos que ainda entramos em contato com a natureza. Não pisamos na terra. Não sentimos o vento. Fugimos do sol. Resta-nos a hora do banho para nos reconectarmos. Somos seres vivos, compostos de cerca de 65% de água. No corpo e na alma.

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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Essas tais coincidências


"Coincidência, substantivo feminino, 1. Ato de coincidir. 2. [...] 3. Simultaneidade de diversos acontecimentos." Esta é a definição disponível no Dicionário Priberam, na versão online. Achei-a objetiva demais. Afinal, se tem algo que mexe com a minha subjetividade, são as coincidências da vida. Como uma música que você não ouvia há anos - por lembrar momentos que ainda doem (ou que sempre vão doer) - e toca no rádio quando você estava em um dia à flor da pele. Tem quem não dê a mínima para eventos como esse. Eu dou o máximo. Talvez de forma que beira o excesso.

Em minha defesa, alego que o dia a dia me força a acreditar nessas tais coincidências. Dou exemplos. Outro dia, passei uma tarde feliz acompanhada. Quando voltei para casa, encontrei amigos de uns vizinhos na entrada do prédio. Nunca havia os visto. No elevador, a moça perguntou para a vizinha se fulano estava em casa. Fulano tinha o mesmo nome de quem eu havia dado tchau há uns 15 minutos... Já numa tarde dessas, recém havia saído de casa e estava caminhando bem bela quando uma mulher cumprimentou um homem do outro lado da rua. O nome do sicrano? Aquele que não deve ser mencionado, também conhecido como ex. Em uma cidade com um milhão de habitantes, um ser com aquele nome vem passar logo perto de mim...

Esses são exemplos "tranquilos". Há alguns acasos que mudaram a minha vida, literalmente. Em uma mesa de bar, depois de umas cervejas, eu conto essas histórias para quem quiser ouvir. Só tem uma condição: não pode me olhar com cara de desdém. Vou me sentir ofendida. Respeito quem não acredita em "destino" ou "lugar certo na hora certa" ou no famoso "estava escrito". Cada um crê e não crê no que quiser. Eu escolho o equilíbrio: 50% é resultado do destino e 50% é resultados das escolhas. Fico em cima do muro, sim.

Às vezes, penso que essas coincidências acontecem somente porque eu valorizo-as. Gosto de pensar que a vida dá "sinais", que tudo está conectado e que há algo além da nossa parca materialidade. Tem mais um motivo. Divago que possa ser o jeito que encontrei de aliviar um pouco o peso sobre as minhas costas. De deixar que o destino se encarregue de me aproximar de quem eu devo me aproximar e de me afastar de quem eu devo me afastar. De não me crucificar por um erro, porque ali na frente a vida dará um jeito. Eu sei que é preciso fazer escolhas o tempo todo. Mas, de vez em quando, eu gosto de fechar os olhos e passar o comando a alguém. Às nuvens, à lua, às estrelas...   

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